sábado, 11 de novembro de 2017

Sylvia Telles


Sylvia Telles

Dindi ( Antônio Carlos Jobim- Aloysio de Oliveira)

Céu , tão grande é o céu
E bandos de nuvens que passam ligeiras
Pra onde elas vão
Ah ! eu não sei, não sei
E o vento que fala nas folhas
Contando as histórias
Que são de ninguém
Mas que são minhas
E de você também
Ah ! Dindi
Se soubesses do bem que eu te quero
O mundo seria Dindi, tudo, Dindi
Lindo, Dindi
Ah ! Dindi
Se um dia você for embora me leva contigo Dindi
Fica Dindi, olha Dindi
E as águas deste rio aonde vão eu não sei
A minha vida inteira esperei, esperei
Por você Dindi
Que é a coisa mais linda que existe
Você não existe, Dindi
Olha, Dindi
Advinha, Dindi
Deixa, Dindi
Que eu te adore, Dindi... Dindi

Vida
A famosa cantora e intérprete da bossa nova Sylvia Telles nasceu no Rio de Janeiro no dia 27 de agosto de 1935. Era filha de Paulo Telles, paulista de origem, de uma família de juristas e intelectuais. Seu irmão chamava-se Mário Telles. Sua mãe, Dona Maria, era francesa de nascimento.
Sylvia estudou no colégio Sacre Couer de Marie situado no bairro das Laranjeiras. Fazia dança com a professora Madeleine Rosay do Corpo de Baile do Teatro Municipal.
O irmão de Sylvia ajudava o pai a tocar o negócio da família, no ramo de tecidos. Era amigo de João Gilberto o famoso compositor que inaugurou a famosa batida da bossa nova. Mas o que empolgava de verdade o irmão de Sylvia eram os conjuntos vocais e a intimidade que ele tinha com um deles Os Garotos da Lua, do qual João Gilberto fazia parte. Era amigo de dois integrantes do conjunto, Jonas e Acyr que trabalhavam nas lojas Murray como balconistas encarregados da venda de discos. As lojas de disco geralmente eram lojas de eletrodomésticos que também vendiam discos.
Com essas amizades, a casa do pai de Sylvia Telles era muito frequentada por vocalistas o que chamou a atenção de Sylvia a irmã caçula da família que também gostava de cantar. Foi ai que a artista descobriu sua vocação.

O Evento no Grupo Hebraico

Sylvia acabou participando de um humilde evento que a transformou numa das percursoras da bossa nova. Foi quando aceitou convite de Moisés Fuks, jornalista, e presidente do Grupo Universitário Hebraico um modesto centro de estudantes israelitas a quem Fuks tentava animar promovendo pequenos espetáculo musicais nas noites de quarta -feira. Mas como os estudantes sofriam com a falta de dinheiro o normal é que o palco da associação fosse ocupado por associados amadores que tinham alguma vocação artística.
Pensando em mudar esta situação, Fuks acionou o conhecido Ronaldo Boscoli jornalista do Última Hora para convocar um pequeno grupo de jovens que se reuniam no apartamento de uma garota chamada Nara ( a futura cantora e intérprete da bossa nova Nara Leão) namorada de Bôscoli.
Esses garotos eram Carlos Lyra, Chico Feitosa, Normando Santos e a própria Nara, Roberto Menescal, também futuro nome importante da bossa nova que tocava violão e já era semiprofissional e músicos como o saxofonista Bebeto Castilho, o trompista Bill Horn, o contrabaixista Henrique, o baterista João Mário e muitos outros todos principiantes. Bôscoli que era letrista e por ser mais velho tinha mais influência moral no grupo gostou da ideia de ver seus amigos se apresentando num palco de verdade. Mas como todos eram ainda solidamente desconhecidos ele temia que não atraíssem muita gente e então pensou em alguém já famoso.
Foi aí que apareceu o nome de Sylvia Telles que era amiga de Ronaldo e dos jovens.
Sylvia estava com vinte e três anos na época. Já era cantora famosa e com forte reputação artística, até na televisão. Era o dia 24 de agosto de 1958. Sylvia aceitou o convite de forma generosa e humilde para se apresentar com um grupo de anônimos num espetáculo gratuito que a princípio nada lhe renderia. Pois não só chegou na hora combinada como cantou seu maravilhoso repertório e fez questão de dividir os aplausos como os outros jovens que mal acreditavam no que estava acontecendo.

Os Primeiros Shows da Bossa nova

O primeiro grande show universitário da bossa nova foi no anfiteatro da Faculdade Nacional de Arquitetura, na Praia Vermelha no dia 22 de setembro de 1959 comandado por Ronaldo Bôscoli e novamente estreado por Sylvia Telles que se chamaria Samba- Session. Somente o espetáculo seguinte na Escola Naval no dia 13 de novembro é que seria chamado de Segundo Comando Da Operação Bossa Nova tendo sido o da Faculdade de Arquitetura o primeiro.
Até então a bossa nova não se designava por este nome. Ser “bossa nova” significava ter qualquer atitude diferente do usual. O grupo que Ronaldo conhecia da casa de Nara Leão era diferente portanto bossa nova.
Foi o que ele escreveu no release sobre o que seria apresentado naquela noite no Grupo Universitário Hebraico- uma noite bossa nova – e que pediu a secretária do Grupo Hebraico Lia Strauch para mimeografar e mandar pelo correio aos associados. Foi também a expressão que Lia usou no quadro-negro no próprio dia do espetáculo:

HOJE- SYLVIA TELLES E UM GRUPO BOSSA NOVA

Acontece que terminado o show, Ronaldo Bôscoli gostou tanto da expressão que juntamente com Fuks passou a repeti-la nas notícias que plantava sobre a turma nos jornais.

Discos

Sylvia Telles lançou seu primeiro LP pela Odeon de 10 polegadas com oito faixas intitulado Carícia, em que ela aparecia vestida de egressa do Lago Dos Cisnes e no qual cantava composições de gente que os colegas de Nara admiravam: Tom Jobim e Newton Mendonça (“Foi a Noite”), Garoto (“Duas Contas”) Tito Madi (“Chove Lá Fora”) Ismael Neto ( com Antônio Maria) “Valsa de Uma Cidade”). A Odeon fazia grandes planos para ela.
A Odeon poderia ter garantido com tranquilidade o monopólio da bossa nova quando em 1960 temendo justamente isso a Philips provocou a primeira grande fissura no movimento atraiu Carlos Lyra para suas cores com a promessa de lançá-lo num disco individual.
Pouco depois, em 1961, foi o próprio Aloysio de Oliveira (produtor, diretor de gravadora e marido de Sylvia) que se deixou seduzir pela Philips e levou com ele de saída Sylvinha, Lúcio Alves,o maestro Lindolfo Gaya e César Vilela e o fotógrafo Chico Pereira responsáveis por ser a primeira dupla gráfica da bossa nova e que criaram as famosas capas em cores do movimento.
Pouco depois Aloysio desentendeu-se com a Philips e com ao apoio do professor Celso Frota (padastro de Tom Jobim) fundou o selo Elenco.
Em toda as gravadoras por que passou Aloísio produziu grandes discos principalmente os de Sílvia Telles entre os quais um dos discos que consolidou a bossa nova Amor de Gente Moça.
Também cantou em Bossa Balanço , Balada pela Odeon onde cantou ao lado de Lúcio Alves.

Morte

Aloysio de Oliveira planejava uma carreira internacional para Silvia de quem se divorciara, afinal sua agora ex- mulher dominava perfeitamente o inglês e o francês.
Na madrugada no dia 17 de dezembro de 1966 um sábado Sylvia entrou em seu Fusca tendo ao lado sua cadelinha Nicole e seu ex-namorado Horácio de Carvalho Jr. e partiram pela Rodovia Amaral Peixoto, rumo a Maricá. Sylvia iria gravar um disco nos Estados Unidos mas adiara a gravação para depois do Natal.
O dia começava a nascer quando de repente o Fusca ziguezagueou pela pista no quilômetro 24 da estrada, Entrou debaixo de um caminhão carregado de abacaxis, foi brutalmente arrastado por ele e despencou num matagal, alguns metros abaixo. Os dois morreram na hora. A Polícia Técnica do estado do Rio concluiu que o motorista Horacinho dormira no volante.
Silvia Telles tinha apenas 31 anos de idade.

Foi a Noite ( Antônio Carlos Jobim- Newton Mendonça)

Foi a noite. foi o mar eu sei
Foi a lua que me fez pensar
Que você me queria outra vez
E que ainda gostava de mim
Ilusão eu bebi talvez
Foi o amor por você bem sei
A saudade que aumenta a distância
E a ilusão feita de esperança
Foi a noite
Foi o mar eu sei
Foi você

Esta gravação realizada em 1956 foi uma das gravações pioneiras da bossa nova que começou o gênero e consolidou Sylvia Telles como uma das grandes intérpretes do gênero.

Para ver uma interpretação de “ Foi a Noite” na voz da própria Sylvia Telles( interpretação tirada do disco Carícia “ ver o link :

https://www.youtube.com/watch?v=WWvYUpKhVd0


Ernesto Nazareth


Ernesto Nazareth

Pianista-compositor na tradição de Liszt e Chopin ou pianeiro “ chorão” dos salões e cinemas cariocas ? Ernesto Nazareth, compositor carioca que é estudado tanto no campo da música popular quanto no da música erudita autor de “ Odeon”, Brejeiro” e “ Apanhei-te Cavaquinho” está representado com igual destaque nas obras de referência sobre música popular e música erudita brasileira.
Ele dedicou suas obras, valsas, tangos e polcas brasileiros a seus maiores contemporâneos eruditos tais como o compositor Henrique Oswald, filho de suíço e a seu colega de cinema Odeon, Heitor Villa-Lobos que também lhe dedicou uma obra ( O Choro n 1 para violão solo).
Claro que em uma sociedade desigual como a da belle époque brasileira em que as cicatrizes de um sistema escravocrata recém- abolido ainda se faziam muito visíveis, a música também era sinônimo de distinção social.
Assim é que quando, na década de 20, Villa-Lobos pediu apoio oficial para viajar a Paris, um de seus mais apaixonados defensores foi Gilberto Amado ( 1887-1969). O flautista e saxofonista Pixinguinha e seus Oito Batutas tinham acabado de fazer, na França, um sucesso que incomodava a elite nacional e segundo Amado era fundamental enviar Villa-Lobos para a Europa com o intuito de mostrar que nossa arte era muito mais elevada que a música que Pixinguinha e seus colegas representavam.
No caso de Nazareth, causou escândalo a ideia do compositor cearense Alberto Nepomuceno (1864-1920) que havia se formado na Europa e regido a Filarmônica de Berlim e como diretor do Instituto Nacional de Música, era uma das figuras musicais mais proeminentes da República de incluí-lo entre os participantes dos concertos que em 1908 celebravam o centenário da abertura dos portos brasileiros “as nações amigas” por Dom João VI. A elite nacional não aceitou um nome da música popular em um concerto de música erudita.
Ernesto Júlio de Nazareth nasceu em 20 de março de 1863, no morro do Nheco, na região da Cidade Nova, no Rio de Janeiro, segundo filho de Vasco Lourenço da Silva Nazareth e Carolina Augusta Pereira da Cunha de Nazareth. Seus irmãos eram Vasco Filho, Júlia Adélia, Maria Carolina e Brizabela que morreu aos três anos.
Seu pai trabalhava como despachante aduaneiro no porto do Rio de Janeiro. Sua mãe dedilhava o piano da família- porque em uma época que ainda não havia rádio ou discos, esse era o único meio de ter música em casa.
Foi assim pelas mãos de Carolina que todos os filhos do casal iniciaram seus estudos musicais e ao que parece Ernesto foi de longe o que manifestou maior interesse. Em 1873, contudo o aprendizado se interrompeu com seu falecimento precoce e inesperado da mãe do compositor.
No mesmo ano, Ernesto então com dez anos caiu de uma árvore sofrendo hemorragia no ouvido direito. Foi o inicio de problemas auditivos que ao acompanhariam a vida inteira e que em seus anos finais agravados pela sífilis, teriam a surdez como consequência.
Depois da perda de Carolina, a família se mudou para a rua Berço de Ouro e Vasco, de luto, proibiu Ernesto de tocar piano. A tristeza e o isolamento em que o menino caiu depois da interdição, contudo, levaram o pai a rever sua decisão e a contratar Eduardo Madeira para prosseguir com sua educação pianística.
Aos 16 anos de idade, Nazareth saiu-se com sua primeira obra- para piano solo. Tratava-se da polca- lundu “ Você bem sabe”.
A escravidão ainda não tinha sido abolida nem a República proclamada quando Nazareth se casou em 1886 com Theodora Amalia Leal de Meirelles. A família não demorou a crescer, em 1887 nasceu a primeira filha do casal Eulina, primeira dos seis filhos do compositor.
Para sustentar a família, Nazareth levava adiante o ofício que então era chamado algo pejorativamente, de pianeiro, dedilhando o instrumento em casas de venda de música ( como demonstrador, executando as partituras negociadas a seus eventuais compradores.) A renda também era complementada com aulas de piano,
O único emprego com registro que teve foi o de terceiro escriturário do Tesouro Nacional em 1907, função interina, do qual se desligou em poucos meses, devido ao fato que para sua efetivação, teria que prestar um concurso público que exigia conhecimento da língua inglesa.
As músicas de Ernesto Nazareth foram denominada por ele mesmo de tangos que nada tem a ver como os similares portenhos. Olhando de perto, a denominação de tango brasileiro nada mais parecia que a denominação respeitável que se dava a uma “ selvagem”, “lasciva” e sincopada dança afro-brasileira de grande sucesso naqueles tempos: o maxixe.
O estigma contra este tipo de música era tão forte que o presidente da República Marechal Hermes da Fonseca ( 1855-1923) chegou a baixar um decreto que proibia a execução de peças do gênero por bandas militares.
E o próprio Nazareth não apreciava que suas obras para piano fossem tomadas como pertencentes a este estilo considerado música reprovável. È mencionado a repugnância do músico diante da confusão que faz com que seus tangos fossem chamados de maxixes.
Com o caminho aplainado pela propaganda modernista, tudo parecia propício a conquista da Pauliceia pelo autor de Odeon. Em 1926, aos 63 anos de idade, ele saia de seu Estado Natal pela primeira vez para ter a mais calorosa das acolhidas.
Teve direito a Festival Nazareth, recitais no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e a grande consagração: um concerto no Teatro Municipal, promovido pela Sociedade de Cultura Artística e precedido de conferência de Mário de Andrade.
De volta ao Rio de Janeiro, Nazareth sentia a audição declinar. Em 1929 ano em que Francisco Alves, o Rei da Voz gravou “ Favorito”( com letras de autor desconhecido), participou de evento em benefício da Policlínica de Botafogo. No mesmo ano, ficou viúvo.
Embora a saúde não fosse das melhores, deixou que amigos gaúchos o convencessem a empreender uma turnê pelo Rio Grande do Sul, em 1932. Depois de tocar em Porto Alegre, Rosário e Campo de Santana do Livramento, foi para Montevidéu, de onde deveria rumar para o Rio de Janeiro.
Na capital uruguaia, contudo teve uma crise nervosa: teve que ser retirado á força de uma casa de música, no qual tocava piano convulsivamente. De volta ao Brasil,o diagnóstico foi sífilis na quarta fase- quando o cérebro é atingido.
O quadro neurológico era irreversível e Nazareth acabou internado na colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá, em janeiro de 1933. Não era incomum que fugisse do manicômio, vez por outra, era encontrado tocando piano em alguma casa de partituras. Fugiu pela última vez no dia 1 de fevereiro de 1934 , fuga sem volta. No dia 4 de fevereiro de 1934, seu corpo foi encontrado em uma represa, nos arredores da colônia.

Ernesto Nazareth 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Herivelto Martins


Herivelto Martins

Vida

O compositor Herivelto Martins nasceu no dia 30 de janeiro de 1912 no distrito de Rodeio (mais tarde Engenheiro Paulo de Frontin) na Serra do Mar, Rio de Janeiro. Era filho de Carlota de Oliveira Martins e Célio Bueno Martins, este um agente ferroviário e também artista amador.
O pai de Herivelto o incentivou a ser artista desde criança num tempo em que a profissão era malvista pela sociedade.
Criado em Barra do Piraí, onde foi morar a partir dos cinco anos, adquiriu de fato este gosto pela arte, pois era mais velho de seis irmãos (três moças e três rapazes) e ajudava o pai, fundador na ocasião da Sociedade Dramática Dançante Carnavalesca Florescente de Barra do Piraí, nome pomposo, mas era uma sociedade muito simples e modesta.
Na lembrança que tinha dos tempos de convívio com o pai Herivelto dizia que tivera infância de menino pobre mas que seu pai era idealista. O pai tocava mal diversos instrumentos. Tinha todos os instrumentos em casa e obrigava os filhos a tocá-los também. O pai era o presidente daquele clube-teatro e os filhos os ajudantes diretos.
Toda a família de Herivelto tinha tendência artística. Todos tentaram a carreira artística com mais ou menos sucesso. O primeiro irmão de Herivelto, Lacy constituiu uma dupla por um tempo Jacy & Lacy, tocava violão mas não deu sorte da carreira.. Sua irmã Eclenira também fez parte de conjuntos vocais, tocava e ensinava violão e Ednar Martins fez parte do grupo As Três Marias.
Além de ensiná-lo a tocar instrumentos, o pai de Herivelto o ensinava a entrar no palco, se vestir, se conduzir e a respeitar o público. Incentivado também por ele começou a compor algumas paródias e imitações. Imitava turco, caipira, português. As paródias faziam sucesso.
Herivelto também foi escoteiro e visitou o Rio de Janeiro pela primeira vez quando o Morro do Castelo começava a ser demolido
Neste meio tempo saia no Natal vestido de Papai Noel no grupo Pastorinhas de Barra do Piraí e, para ajudar a família, vendia doces feitos pela mãe. Mais tarde, a família mudou-se para Santo Cristo, bairro afastado da cidade onde montou com os irmãos um grupo teatral que promovia sessões para a vizinhança, cobrando ingressos, no próprio quintal da casa. Aconselhado pelo pai trabalhou como vendedor e ajudante de contabilidade numa loja de móveis a prestação.
Em 1927, aos 15 anos entrou para o circo e no final de1930 sua família mudou-se para São Paulo, pois seu pai fora transferido. Mas Herivelto não gostou da cidade e não se adaptou.
Sonhava mesmo era com a carreira artística. Aos 18 anos, então saiu de casa seguindo sozinho para o Rio de Janeiro, indo morar com o irmão Hedelacy que já estava por lá. A situação era crítica. Se encostou no irmão e foi tentar algo para sobreviver, passando por inúmeras dificuldades. Chegou a desmaiar na rua, porque estava passando fome.
Para sobreviver arranjou um serviço como barbeiro. Foi esta profissão que o salvou de morrer de fome no Rio de Janeiro.

Dalva de Oliveira

Herivelto conheceu sua futura esposa em 1936. Nasceu daí o Trio de Ouro que além do casal tinha Nilo Chagas.
O casal vivia em cortiços e teve os filhos Pery ( o cantor Pery Ribeiro) e mais tarde Ubiratan, mais tarde um dos diretores do departamento internacional da TV Globo. O casamento viria somente em 1939. Mas antes na década de 30, ao chegar ao Rio, Herivelto já tinha morado com Maria Aparecida com quem viveu pouco tempo mas teve dois filhos ( Hélcio e Hélio). Herivelto só assumiu os filhos após muita pressão da família da antiga companheira já na fase de união com Dalva.
Os primeiros êxitos do Trio de Ouro foi quando o grupo estreou em disco com “ Cecy e Pery” marchinha de um compositor conhecido como Príncipe Pretinho. Depois veio “Itaquari” gravado na Victor, também de Príncipe Pretinho.
Os maiores sucessos do trio cuja primeira formação durou doze anos, foi “ Lá em Mangueira”, “Senhor do Bonfim”, “ E não sou baiano “, “ Salve a princesa”- quatro pérolas carnavalescas- Odete (com Francisco Alves), “Praça Onze” ( com Castro Barbosa), “Bom dia, avenida” e “Minueto” além do clássico “ Ave Maria do Morro.

Ave Maria do Morro

Barracão
De zinco, sem telhado
Sem pintura, lá no morro
Barracão é bangalô.
Lá não existe
Felicidade de arranha-céu
Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu
Tem alvorada, tem passarada
Alvorecer
Sinfonia de pardais
Anunciando o anoitecer
E o morro inteiro
No fim do dia
Reza uma prece,
Ave Maria
Ave Maria, a- a- ave
E quando o morro escurece
Eleva a Deus uma prece
Ave Maria

Apesar de ser excelente compositor, genial e pioneiro criador de novidades no panorama artístico brasileiro e um homem considerado de imensa perseverança e generosidade com os amigos, Herivelto tinha o gênio difícil .Centralizador e durão era muito machista refletindo os valores da época em que vivia no momento onde o homem, o dono da casa, tinha sempre a palavra final, tinha sempre que dominar a mulher. Ele não admitia ser contrariado pela esposa que também tinha gênio forte. A boemia, o comportamento de Herivelto e suas muitas escapadas amorosas incomodaram e revoltaram a esposa e logo começaram a surgir as primeiras desavenças entre os dois. As brigas se tornaram uma constante. E não eram só brigas verbais, havia também violência física.
O compositor já anunciava a tensão existente no casamento com a música “Caminhemos” que era um prenúncio do que aconteceria na vida do casal.
Caminhemos ( Herivelto Martins)

Não, eu não posso lembrar que te amei
Não, eu preciso esquecer que sofri
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou para nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois
Vida comprida estrada alonga...da
Parto á procura de alguém, á procura de nada
Vou indo, caminhando sem saber onde chegar
Quem sabe na volta te encontre no mesmo lugar

Apesar dos bons momentos, incluindo o perfeito casamento musical de sucesso no Trio de Ouro e do forte sentimento amoroso que tinham um pelo outro, a separação do casal era inevitável. E se deu definitivamente em 1949, durante uma viagem à Venezuela embora Herivelto já estivesse envolvido afetivamente há pelo menos dois anos ( e Dalva não desconhecia este fato) com Lurdes Torelly, uma bela aeromoça, morena, de olhos verdes que viria a ser sua nova mulher, a partir de então.
Antes do embarque para a Venezuela, é preciso salientar que já haviam iniciado o processo de desquite. Viajaram sob o regime de separação consensual. Por exigência do juiz da Vara de Família que não considerava apto a dar atenção necessária aos dois filhos, por serem artistas. Pery e Ubiratan foram enviados para um colégio interno, o que causaria traumas profundos na cabeça dos dois e demoraria muito tempo para que os superassem
O que Herivelto não esperava é que Dalva sua invenção no Trio de Ouro e sua esposa devota se tornaria dentro de alguns meses a maior cantora do Brasil. Ele não reagiu nada bem a isso.
O conflito explodiu quando se revelou uma das muitas escapadas amorosas de Herivelto. Quando Dalva procurou retomar sua vida inclusive buscando um novo companheiro começou a guerra entre os dois monstros sagrados da música popular brasileira.
Herivelto começou a fazer músicas atacando a ex- esposa. Ela não precisou dizer uma só palavra em seu favor pois teve grandes compositores da música popular brasileira para falar em seu favor fazendo músicas que a defendiam tais como Nelson Cavaquinho e Ataulfo Alves entre outros.
Como grande parte do público que acompanhava o caso estava tomando partido a favor de Dalva, Herivelto acabou aceitando a ideia de seu amigo David Nasser, seu parceiro em inúmeras de suas composições para usar um espaço no jornal popular Diário da Noite de modo a dar sua versão muito particular do confronto que estava tendo com a ex-mulher. Foram 22 capítulos semanais a partir do início do 1951 visando a difamar Dalva. Pouca gente viu algo de valor neste fato o que diminuiu um pouco o prestígio da segunda formação do Trio de Ouro, com Raul Sampaio e Noemi Cavalcanti.

Pery Ribeiro

Filho do compositor Herivelto Martins e da cantora Dalva de Oliveira Pery Ribeiro nasceu no dia 27 de outubro de 1937 e faleceu em janeiro de 2012.
Profundamente traumatizado pela separação dos pais encontrou na realização artística um meio de superar seus problemas.
Foi o primeiro cantor a gravar “ Garota de Ipanema”. Pery foi ao show Encontro, o show dirigido por Aloysio de Oliveira e produzido por Flávio Ramos na boate de propriedade deste último, Bon Gourmet na rua Barata Ribeiro, em Copacabana. No show apresentaram-se juntos João Gilberto, Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Pery acabou gravando a música e depois pediu a autorização ao trio.
Pery adquiriu fama ainda criança. Orson Welles, o grande diretor de “ Cidadão Kane” considerado o melhor filme de todos os tempos veio para o Brasil com o intuito de filmar It´s All True ( É Tudo Verdade) filme sobre o Carnaval brasileiro. Ele precisava de um assistente brasileiro e indicaram-lhe o compositor e radialista Haroldo do Lobo porque este sabia falar inglês. Mas Haroldo acabou por recusar o convite e acabou indicando Herivelto Martins e o comediante e compositor Grande Otelo autores do samba “ Praça Onze” grande sucesso do Carnaval de 1941. Ninguém, segundo Haroldo, entendia mais de Carnaval do que os dois.
Orson queria filmar o Carnaval do ponto de vista de uma criança. Na sua concepção, a câmera iria seguir o garoto subindo o morro, assistindo aos ensaios no terreiro esgueirando-se por um mar de pernas de sambistas e passeando pela Avenida nos desfiles. Herivelto gostou da ideia ,porque já tinha uma criança em mente.
As filmagens de rua aconteciam em frente à escadaria do Teatro Municipal e as outras no estúdio da Cinédia em São Cristóvão. Pery era a criança que ia antecedendo e guiando a câmera mostrando o Carnaval brasileiro.

A Volta Por Cima

Apesar do grande embate travado entre Dalva e Herivelto marcado por ataques e canções terríveis capazes de machucar de ambos os lados ambos acabaram por reconstruir suas vidas.
Contra todas as expectativas Dalva encontrou a sua verdadeira voz e se tornou uma das rainhas da música popular no Brasil- para muitos a maior cantora de música popular brasileira. Os compositores se superavam para lhe escrever canções e ela foi a criadora, ou seja a primeira cantora a gravar canções como “ Tudo Acabado”, Errei, Sim”, “Que Será”, “Calúnia”, “Olhos Verdes” “ Zum- Zum”,“Rio de Janeiro”, “Estrela do Mar”, “Kalu”, “Neste Mesmo Lugar” E já nos anos 60 e 70 “ Rancho da Praça Onze”, “Máscara Negra” e “Bandeira Branca”
Herivelto também reconstruiu sua vida. No seu novo casamento com Lurdes Torelly, uma mulher que além de bonita e fina era muito inteligente, estável emocionalmente e dominadora a seu modo Herivelto se equilibrou novamente. Ela o ajudou em sua recuperação social e familiar depois das fases de escândalos com Dalva. Tiveram mais três filhos: Fernando, Yaçanã Martins que virou atriz e Herivelto Martins Filho.
No campo artístico todavia Herivelto acabou se acomodando em sua vida burguesa sem reparar nas mudanças gerais que a partir dos anos 60 começavam a se processar no Brasil e no mundo. Nunca mais criou outras músicas .Acabou dedicando-se mais a religião e de certa forma, à política.
No campo da espiritualidade, ele fundou um centro de umbanda em Realengo chamado Cabana Pai Joaquim Mina ao lado da nova esposa, pouco depois de se casarem. Dirigindo o terreiro, encontrou resposta na espiritualidade.
No campo da política ele passou a lutar pelos direitos autorais dos que faziam música no Brasil sendo o presidente do Sindicato dos Compositores por dois mandatos consecutivos. Também foi presidente da SBACEM- Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música. Como presidente do sindicato conseguiu o direito à aposentadoria para o artista e a obrigatoriedade da contribuição sindical.
Herivelto foi também funcionário público. Foi Inspetor do Trabalho e da Previdência Social fazendo sua especialização em higiene e segurança do trabalho.
Pery Ribeiro, portanto, teve a felicidade de redescobrir as qualidades humanas de seus pais antes que eles morressem acabando por se pacificar consigo próprio e com eles.

Falecimento

Herivelto Martins morreu do dia 16 de setembro de 1992, no Rio de Janeiro.



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Jacob do bandolim


Jacob do Bandolim

O bairro carioca da Lapa, notório pela vida boêmia de seus moradores, era um bairro onde conviviam diversos tipo de gente na década de 1910. Ali, viviam, em relativa harmonia, boêmios, malandros, prostitutas francesas e polacas (como eram chamadas as mulheres que exerciam esse ofício vindas do Leste da Europa), cafetões e intelectuais.
O compositor Jacob do Bandolim nasceu na rua Joaquim Silva, uma das mais movimentadas do bairro, na Maternidade das Laranjeiras no dia 14 de fevereiro de 1918. Era filho da polonesa Rachel Pick com o farmacêutico capixaba Francisco Gomes Bittencourt, muitos anos mais velho.
Batizado Jacob Pick Bittencourt, o menino foi morar no sobrado de número 97, onde passou a infância e a adolescência. Uma infância solitária da qual sobraram em suas lembranças apenas um velocípede e um cachorro chamado Príncipe. Certamente a mãe, conhecendo o ambiente do bairro preferia mantê-lo isolado. Mas a música furou o bloqueio através do som do violino de um francês, que ficara cego na Primeira Guerra e morava no andar térreo do sobrado. Fascinado pelo som, o menino pediu e ganhou um violino, mas não conseguiu se adaptar ao arco. Começou a pinicar as cordas com um grampo de cabelo e depois de inúmeras cordas partidas uma vizinha julgou que o instrumento mais apropriado para o menino talvez fosse o bandolim.
E assim foi feito. O menino ganhou um bandolim de cuia, tipo napolitano e sozinho foi aprender o instrumento criando um novo estilo de tocar este instrumento. Um dia, vindo de uma festa na vizinhança, Jacob ouviu uma melodia de um choro. Era o clássico” E do que há” e solado por seu autor Luiz Americano. Pegou o bandolim e ficou tentando reproduzir o que ouvia. Desde esse dia até o fim de sua vida, sua fascinação pelo choro só aumentou.
O adolescente ficou obcecado em conseguir um bom resultado com o bandolim e, autodidata, foi conseguindo vencer etapas. Aos quinze anos tocou pela primeira vez numa estação de rádio, era a Hora do Amador Untissal”( antisséptico cicatrizante, antecessor do mertiolate) da Rádio Guanabara. Com o grupo do Sereno, uns amigos também iniciantes tocou o choro “Aguenta Calunga” do flautista paulista Atílio Grani. O resultado não entusiasmou a Jacob que preferiu continuar estudando.
Após acompanhar fadistas e guitarristas portugueses com o violão durante algum tempo, Jacob iniciou de fato sua carreira de solista ao ganhar o concurso do “Programa dos Novos” na mesma Rádio Guanabara algum tempo depois. Para o concurso organizou o conjunto Jacob e Sua Gente, que era composto por Valério Farias, o Roxinho e Osmar Menezes nos violões, Carlos Gil no cavaquinho, Manuel Gil no pandeiro e Natalino Gil na percussão. O conjunto começou a atuar em diversas rádios e chegou a substituir o regional de Benedito Lacerda, o de maior renome na época., no acompanhamento de cantores.
E assim o grupo ia percorrendo as rádios e ganhando dinheiro

Amizade

Em 1939, na Rádio Ipanema, que ficava no Posto Seis em Copacabana, Jacob conheceu um rapaz violonista que servia ao Exército no Forte ali perto e que se tornaria seu mais valioso auxiliar pela vida inteira. Tratava-se de Benedito César Ramos de Faria que mais tarde teria a felicidade de ver seu filho Paulo consagrado na carreira artística com o nome artístico de Paulinho da Viola.

Casamento

Em 1940 no dia 11 de maio Jacob casou-se com Adylia Ferreira moça de família de classe média próspera e teve que assumir um compromisso para que o pai da noiva aceitasse o enlace. Prometeu e cumpriu não depender de música para os sustento do casal. E a família cresceu rápido. Em 1941 nasceu o filho Sérgio e no ano seguinte a filha Elena.

Emprego

Em 1943, Jacob se afastou do trabalho em rádios para se preparar e prestar um concurso público. Aprovado, foi nomeado escrevente juramentado da justiça, profissão que exerceu até sua aposentadoria. Não se pode precisar se em função da agilidade dos dedos ou pela prática da função de escrevente, Jacob se tornou um virtuose da máquina de escrever, capaz inclusive de conversar ou solfejar uma música enquanto batia um texto.
Por insistência de Adyla voltou ao rádio em 1945, passando a atuar na Rádio Mauá com um grupo novo que trazia a base do conjunto com que finalmente chegaria ao disco na Continental dois anos depois.
No começo da década de 1940, Jacob gravou com o grande compositor Ataulfo Alves alguns sambas que tiveram muito sucesso como o clássico “ Ai que saudade de Amélia”. Também gravou quatro discos contendo música de Ernesto Nazareth. Trata-se de adaptações perfeitas de músicas muito bem escritas para piano e transcritas para bandolim e conjunto regional.

Opiniões Polêmicas

Jacob do Bandolim possuía uma personalidade muito forte e contraditória. Não tinha pudor em emitir suas opiniões polêmicas doesse a quem doesse.
È muito conhecida a sua implicância com a música e a pessoa de Waldir Azevedo.
Em 1953, Jacob deu uma entrevista para o jornal” O Tempo de São Paulo” na qual previu que o choro duraria no máximo dez anos. Depois deste tempo confirmou esta afirmação sobre o acerto de sua previsão.; E não está morto? Mas em outra ocasião esquecendo do atestado de óbito pré-datado que ele mesmo assinara declarou: “Não deixarei que façam com o choro o que fizeram com o samba”
Na contracapa de seu LP “ Na roda do choro” definiu o chorão de forma bem fantasiosa:”É em princípio um improvisador, passa a vida planejando ensaios que nunca realiza porque indisciplinado, rebelde, os transforma em memoráveis reuniões onde prefere mostrar seu talento emotividade e capacidade improvisadora. Não faz questão de ser renumerado, mas não dispensa onde toca um bom prato ou um gostoso trago ou ambos ao mesmo tempo. Prefere o sereno ao abrigo até mulher nessas reuniões é para o chorão apenas um incidente” Para quem não bebia e ensaiava seu grupo com mão de ferro essa definição de chorão é até irônica.
Atacava os músicos da velha guarda, como Donga, Mas atacava também Baden Powell e Rosinha de Valença. Não poupava nem mesmo Edu Lobo do qual só achava bom Canto Triste.
Criticava ferozmente a bossa nova que considerava uma tentativa de imitação do jazz que eliminava as mais autênticas inflexões da música brasileira opinião que refletia sua definição do povo brasileiro como um povo simples, conservador e que não dispensava um chinelo velho e a sombra de uma mangueira.

O Bandolim

Jacob deu personalidade própria ao bandolim brasileiro no que tange a forma de tocar. Ao contrário do que já foi publicado o formato do instrumento que usava não é resultado de suas pesquisas. Jacob tocava um bandolim feito por um português, de acordo com a tradição lusitana do instrumento, uma espécie de cruzamento de bandolim napolitano com guitarra portuguesa.
E por falar em heranças lusitanas, o fraseado de Jacob sofreu influência dos executantes de guitarra portuguesa. Foi certamente a partir daí que ele extraiu os ornamentos que usou com tanta propriedade em suas interpretações. Quando perguntado o porquê de seu bandolim ter um som tão diferente do usual ele respondia sem falsa modéstia; “ O som do bandolim não é diferente o que é diferente sou eu “
Naquela Mesa
O filho de Jacob Sérgio Bittencourt autor da canção” Modinha” fez uma emocionante homenagem ao pai depois do falecimento de Jacob. Trata-se da música Naquela mesa famosa na voz da Divina Elizeth Cardoso.
A letra é a seguinte :

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre
O que é viver melhor
Naquele mesa ele contava histórias
Que hoje na memória
Eu guardo e sei de cor
Naquele mesa ele juntava gente
E contava contente
O que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa um canto
Uma casa e um jardim
Se eu soubesse quanto doí a vida
Essa dor tão doída
Não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala
Do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele
Tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele
Tá doendo em mim
Morte

Em 13 de agosto de 1969, voltando da casa de seu ídolo Pixinguinha Jacob teve o segundo e fatal enfarte. O primeiro havia sido no palco do Teatro Casa Grande depois de uma ovação de universitários por sua interpretação de Lamentos .O segundo foi fulminante e foi uma grande perda para o bandolim brasileiro.







quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Vinícius de Moraes


Vinícius de Moraes

Pela Luz dos Olhos Teus (Vinícius de Moraes)

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só para me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz do olhos meus
Na luz dos olhos teus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais laruriá
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar.

Vida

O famoso compositor, dramaturgo, jornalista, poeta e cantor Vinícius de Moraes cujo nome completo era Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 19 de outubro de 1913. Nasceu no bairro da Gávea e era filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da Prefeitura, poeta e violonista amador e Lídia Cruz, pianista amadora. Vinícius foi o segundo de quatro filhos formado pelos irmãos Lígia (1911), Laetitia (1916) e Helius ( 1918). Mudou-se com a família para o bairro do Botafogo em 1916, onde iniciou o seus estudos na Escola Primária Afrânio Peixoto.
Vinícius de Moraes ingressou em 1924 no Colégio Santo Inácio de padres jesuítas onde passou a cantar no coral e começou a montar pequenas peças de teatro. Três anos mais tarde tornou-se amigo dos irmãos Haroldo e Paulo Tapajós com quem começou a fazer suas primeiras composições e se apresentar em festa de amigos. Em 1929, concluiu o ginásio e no ano seguinte ingressou na Faculdade de Direito do Catete, hoje Faculdade Nacional de Direito. Na chamada Faculdade do Catete conheceu e tornou-se amigo do romancista Otávio de Faria, que o incentivou na vocação literária. Vinícius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933.
Três anos depois obteve o emprego de censor cinematográfico junto ao Ministério de Educação e Saúde. Dois a anos mais tarde, Vinícius de Moraes ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford, Em 1941, retornou ao Brasil empregando-se como crítico de cinema do jornal A Manhã. Tornou-se também colaborador da revista Clima e empregou-se no Instituto dos Bancários.
No ano seguinte foi reprovado em seu primeiro concurso para o Ministério da Relações Exteriores. Em 1943, concorreu novamente e desta vez foi aprovado. Em 1946, assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles. Com a morte do pai em 1950, Vinícius de Moraes retornou ao Brasil Nos anos 1950, Vinícius atuou no campo diplomático em Paris e Roma.


Íntimo das Musas

Foram nove casamentos. O poeta casou-se com Beatriz Azevedo de Melo conhecida como Tati de Moraes, Regina Pederneiras, Lila Bôscoli, Maria Lúcia Proença, Nelita de Abreu, Cristina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodrigues Santamaria ( A Martita) e Gilda de Queiros Matoso.

A Primeira Música

A primeira música de Vinícius de Moraes foi o fox trote Loura ou Morena feito em parceira com Paulo e Haroldo Tapajós.. Seu primeiro livro de poemas O caminho para a Distância entretanto só seria publicado em 1933.


Parceiros

Os parceiros de Vinícius foram inúmeros. Foi Tom Jobim, com quem compôs “ Chega de Saudade” , “ Se Todos Fosse Iguais a Você”, “ A Felicidade “ “ Brigas Nunca Mais, “ Eu Sei que Vou te Amar”.

A Felicidade ( Antônio Carlos Jobim _ Vinícius de Moraes)

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei de pirata ou jardineira
Para tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo , por favor
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

“Felicidade” foi uma música feita para a versão cinematográfica da peça Orfeu Da Conceição feita por Vinícius e Tom Jobim. O filme foi dirigido pelo diretor francês Marcel Camus.

Os Parceiros

Além de Tom poeta foi parceiro de Paulo e Antônio Tapajós, Antônio Maria, Adoniran Barbosa, Carlos Lyra, Pixinguinha, Ary Barroso, Moacir Santos, Paulinho Nogueira, Francis Hime, Capiba, Edu Lobo, Edino Krieger, Claudio Santoro, Paulo Soledade, Chico Buarque, Carlinhos Vergueiro Toquinho e parcerias póstuma com Garoto e Ernesto Nazareth. Isso sem falar na poderosa parceria com o compositor e violonista Badem Powell que gerou os famosos afro-sambas, sambas com influência das religiões africanas tais como “ Berimbau” e Canto de Ossanha”.


Garota de Ipanema
Vinícius teve a felicidade de compor aquela que se tornou a música mais popular da música popular brasileira Garota de Ipanema. Inspirada na então estudante Heloisa Eneida Menezes Paes Pinto,o versionista norte- americano Norman Gimbel achava que o nome do bairro da zona sul carioca era exótico demais para título de música. Havia até o receio de fazer confusão com “ Ipana” marca de um dentifrício local.
A letra é a seguinte :

Garota de Ipanema ( Tom Jobim- Vinícius de Moraes)

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
No doce balanço, caminho do mar
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar
Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ah se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo por causa do amor.


Posições Políticas

O poeta, por causa de sua simpatia com ideias de esquerda, foi exonerado de seu cargo pelo Ato Institucional N 5 no período do regime militar.

Morte

Na madrugada de 9 de julho de 1980, Vinícius de Moraes começou a se sentir mal na banheira da casa onde morava na Gávea, vindo a morrer pouco depois.
Vinícius de Moraes 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Pixinguinha


Pixinguinha

O famoso compositor de musica popular brasileira conhecido como Pixinguinha na verdade se chamava Alfredo Da Rocha Viana Filho. Sua certidão de nascimento tinha uma falha; Pixinguinha só foi descobrir que nascera em 23 de abril de 1897 e não um ano depois como ele e muitos acreditavam quando já havia completado 70 anos de idade.
A mãe do compositor se chamava Raimunda e casou-se duas vezes. Teve quatro filhos no primeiro casamento. Da segunda união, com Alfredo da Rocha Viana vieram mais nove filhos incluindo o caçula Alfredo Filho. Na infância era chamado de Pinzindim por toda a família. Teria recebido esse apelido de sua avó Edwirges nascida na África. Só anos depois foi informado que Pizindim significava “menino bom” em algum dialeto africano.. Já o apelido Pixinguinha surgiu mais tarde decorrente das marcas deixadas em seu corpo pela varíola (popularmente conhecido como bexiga) que contraíra em uma epidemia. Na adolescência também era conhecido pelo apelido de Carne Assada um de seus pratos favoritos.
O pai Alfredo que tinha um emprego na Repartição Geral dos Telégrafos tocava flauta nas horas de folga. Muito aquém do flautista virtuose que seu filho se tornou era apenas um musico amador que tocava por paixão mas até chegou a compor uma valsa intitulada “ Tristezas Não Pagam Dívidas”. Sua numerosa família por sinal era bastante musical. Quase todos tocavam algum instrumento ou ao menos cantavam. Os irmãos Henrique e Leo que também tocavam violão foram os responsáveis por ensinar ao caçula os primeiros rudimentos no cavaquinho.
Pai da nacionalidade brasileira Pixinguinha também exerceu a função de regente onde deixou contribuições essenciais para a musica brasileira. Sua experiência como líder teve início com o lendário grupo Oito Batutas ainda no final dos anos 10. Seguiu com as orquestras Pixinguinha-Donga e a Diabos no Céu na década de 1930 até a criação do conjunto Velha Guarda já nos anos 50. Modesto , Pixinguinha gostava de dizer que não gostava de mandar nos companheiros. Comandava-os com discrição e modéstia
Foi também arranjador. Um dos pioneiros na arte do arranjo musical em nosso país, Pixinguinha dedicou-se a buscar uma linguagem de orquestra tipicamente brasileira. Esta atitude foi alvo de críticas por parte dos nacionalistas mais ortodoxos que acusavam os arranjos de Pixinguinha de sofrer demasiada influência norte- americana.

O Choro

Pixinguinha foi considerado um dos mestres do gênero musical tipicamente brasileiro conhecido como choro.
Como gênero musical, o choro só assumiu uma forma mais definida no início do século XX.. Sua origem, no entanto vem de meados do século anterior, época em que as danças de salão europeias como a polca, o schottish, a valsa e o minueto começavam a ser praticada em nosso pais.
Inicialmente o que se definia como choro era uma maneira mais “ chorosa” mais emotiva de interpretar uma melodia- daí o termo chorão aplicado aos músicos que tocavam desse modo.
Em termos musicais como a polca europeia que lhe serviu de matriz inicial, o choro é composto por três partes que seguem a forma clássica do rondó ( na execução sempre se retorna a primeira parte da composição depois de passar por cada uma das outras. Choros mais modernos já adotam um estrutura de apenas duas partes.
A exemplo de outros gêneros musicais afro- americanos como o samba e o jazz a origem do termo choro é polêmica. Segundo estudiosos o termo viria de “xolo” uma espécie de reunião dançante frequentada pelos escravos nas fazendas onde trabalhavam. Para outros pesquisadores o termo choro teria ligação com uma corporação musical muito atuante no período colonial: a dos choromeleiros. Embora tocassem outros instrumentos esses músicos ficaram conhecidos por suas charamelas, instrumentos de sopro que antecederam as atuais palhetas ( clarinetes, oboés e fagotes )
Segundo outros especialistas em música popular brasileira o termo choro é decorrente da sensação de melancolia transmitida pelas baixarias do violão ( estilo de acompanhamento típico do choro concentrado na região mais grave do instrumento).Já o músico Henrique Cazes é favorável á tese de que o choro é uma derivação da maneira mais sentimental de tocar as danças vindas da Europa, o que resultou num abrasileiramento destes ritmos.

Carinhoso
Em 1928, Pixinguinha gravou o famoso choro Carinhoso. Esta composição hoje considerada um clássico da música popular brasileira foi atacada na época em que foi publicada por um crítico de música chamado Cruz Cordeiro que acusou o compositor de ter feito uma música influenciada pelo jazz, pela música norte- americana.
O compositor em alguma medida já havia previsto que sua música iria causar polêmica ou mesmo rejeição. Composto apenas por duas partes, ele rompia com o padrão de três partes estabelecido até então nesse gênero musical. Por essa razão Pixinguinha manteve a composição na gaveta durante alguns anos até se decidir a gravá-la.
Antes de ganhar os versos que hoje são tão conhecidos, Carinhoso ainda foi gravado em duas versões instrumentais; em 1929 pela Orquestra Victor Brasileira comandada pelo próprio Pixinguinha e em 1934 pelo bandolinista Luperce Miranda. Mas foi só depois de ser letrado por Braguinha( conhecido na época como João de Barro) a pedido da cantora Heloísa Helena que esse choro parece ter recebido o empurrão que faltava para conquistar o grande público. Tornou-se uma das canções mais populares da história da música popular brasileira, já gravada centenas de vezes.
A letra poética e singela é a seguinte:

Carinhoso ( João de Barro- Pixinguinha)

Meu coração
Não sei por quê
Bate feliz, quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim, foges de mim
Ah ! Se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito muito que eu te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem. vem
Vem sentir o calor
Dos lábios meus
Á procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então
Serei feliz, bem feliz.

Os Oito Batutas

Pixinguinha pertenceu a um grupo de oito músicos conhecido com os Oito Batutas. Este grupo excursionou ,patrocinado pelo milionário Arnaldo Guinle em 1919 por Minas Gerais e São Paulo;em 1921 foram a Bahia e Pernambuco.
Em 1922 o grupo embarcou a para Paris para uma inusitada temporada no cabaré Scherazade.
A imprensa brasileira superestimou fato dividindo-se em duas correntes: uma a do ufanismo ingênuo dos que viam os europeus se dobrarem diante de um grupo musical brasileiro e outra as do críticos preconceituosos e esnobes que viam com preocupação um grupo de musica popular se destacar na Europa o que contrariava os interesses da elite nacional.

Vício

Pixinguinha também foi vítima do alcoolismo. Chegou a gastar todo o seu ordenado em bebida. Isto dificultou muto sua vida pois não podia pagar as prestações da casa em que vivia com sua mulher Beti.

Outras Músicas Compostas por Pixinguinha

- Vou Vivendo ( Pixinguinha)
- Um a Zero ( Pixinguinha- Benedito Lacerda)
- Os Oito Batutas ( Pixinguinha)
- Sofres Porque Queres ( Pixinguinha- Benedito Lacerda)
- Lamentos ( Pixinguinha- Vinícius de Moraes)
- Yaô ( Pixinguinha- Gastão Viana)
- Naquele Tempo ( Pixinguinha- Benedito Lacerda)
- Rosa ( Pixinguinha – Otávio de Souza)

Morte
O compositor morreu tranquilamente durante o batizado de um afilhado na Igreja de Nossa Senhora de Paz, no Rio em 17 de fevereiro de 1973.









segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Dolores Duran


Dolores Duran

A Noite de Meu Bem (Dolores Duran)

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite de meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
Quero alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite de meu bem
Ah! como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a pureza que eu quero lhe dar

Vida

A cantora e compositora Dolores Duran cujo nome verdadeiro era Adileia Silva da Rocha nasceu em 7 de junho de 1930. Era a terceira de quatro filhos do sargento da Marinha Armindo José da Rocha e da dona de casa Josefa Silva da Rocha. Nasceu no Bairro da Saúde, no Centro do Rio de Janeiro. Mas a família se transferiu para vários endereços desde dos subúrbios de Irajá e Pilares ao Largo de Campinho e até Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Teve uma vida pobre de muitas dificuldades e pouco dinheiro. Cursou o primário, não chegando a concluir o ginásio. Aprendeu muita coisa sozinha pois era de natureza muito perspicaz e esperta. Sem dúvida foi menina-prodígio pois desde garotinha já cantava em festas de reisado e ia vestida de anjinho em procissões. A mãe tinha boa voz mas não quis seguir carreira.
Dolores não teve receio para encarar um mal-humorado Ary Barroso no programa dominical dirigido pelo famoso compositor de Ubá, Minas Gerais. O programa chamava-se Calouros em Desfile e era exibido na Rádio Tupi. Cantou o bolero “ Vereda Tropical” uma audácia de sua pessoa pois Ary era ultranacionalista e não era muito dado a estrangeirismos. Mas apesar disso ganhou a nota máxima no programa.
Depois foi tentar a sorte na Escada de Jacó outro famoso programa de calouros apresentado por Zé Bacurau. Foi tao bem que passou a integrar a caravana de cantores do programa cantando todos os domingos em shows de bairro, entre cinema teatros e circos, com o devido aval da família, Um caso singular pois naquele tempo a carreira de cantora era muito malvista como carreira para moças de boa família. Antes de se profissionalizar ainda adolescente conseguiu atuar como radioatriz na Rádio Tupi no programa de histórias infantis Teatro da Tia Chiquinha. Também passou muitas manhãs de domingo ao lado de iniciantes como Gerdal dos Santos e Natálhia Timberg no Teatro Carlos Gomes em peças infantis do diretor Olavo de Barros tais como “Aladim e Lâmpada Maravilhosa”, “Mãe d´Água”, “O Gaúcho” e “O Príncipe de Limo Verde.” Era um sacrifício para a família pois nesse tempo morava em Duque de Caxias e só havia o trem como transporte até o Centro do Rio. Mas a família sempre incentivou a vocação da menina.
Dolores tinha grande facilidade em aprender idiomas. Aprendeu a dominar o inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e até esperanto.

Características da Personalidade

Dolores tinha uma personalidade inquieta e era de personalidade muito forte e muito dona de si. Teve vários casos afetivos. Era de fato uma mulher á frente do seu tempo. Na vida pessoal e na vida artística. Foi menina-prodígio pois demonstrou talento artístico desde muito cedo. Mais crescida foi morar sozinha antes mesmo de se casar. Encarou os auditórios das rádios e boates ainda mocinha e namorou com quem bem entendeu e teve um comportamento sexual muito avançado para a época sem se preocupar com o protocolo reservado obrigatoriamente as mocinhas da época. Era mulata e enfrentou o preconceito. A respeito de deste fato sofreu uma ação preconceituosa muito forte por parte de uma pessoa. Na época estava namorando o compositor Billy Branco que testemunhou o fato e escreveu uma música cheia de significado:

A Banca do Distinto (Billy Branco )

Não fala com pobre, não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Para que tanta pose doutor
Pra que esse orgulho
A bruxa que é cega esbarra na gente
E a vida estanca
O enfarte lhe pega doutor
E acaba esta banca
A vaidade é assim põe o bobo no alto
E depois retira a escada
Mas fica por perto esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde acaba no chão
Mais alto o coqueiro maior é o tombo
do coco afinal
Todo mundo é igual quando a vida termina
Com terra por cima e na horizontal.

Ainda sobre a questão da cor da pele ocorreu uma postura singular da cantora que contribuiu para entendermos sua personalidade e como isso influenciou em sua carreira. Adileia fez aulas de música e canto no subúrbio de Brás de Pina com a professora Mercedes Malagutti. Mas não teve paciência para seguir no canto lírico nem quis ser cantora lírica. Sua frase: “ A gente não vê preto em ópera isso não dá futuro”.

Era simpatizante do Socialismo numa época em que poucos no Brasil conheciam este sistema ideológico. Não era de se curvar a homem nenhum tanto que seu casamento durou pouco mais de dois anos. E num país em que o divórcio era proibido. Foi uma das primeiras compositoras e letristas brasileiras e uma das pioneiras cantoras de impostação moderna um estilo de cantar coloquial sem os exageros do bel canto. Contudo não era contida. Tinha bom alcance vocal.


Letrista

Dolores virou letrista e compositora nos três último ano de sua vida.
A letrista passou a ser levada mais a sério de fato quando, ao ouvir Tom Jobim tocando “Por causa de você” num piano, no estúdio da Rádio Nacional achou linda a melodia pegou um lápis de sobrancelha e começou a rascunhar num guardanapo a letra que lhe vinha a mente. Vinícius de Moraes que já havia feito uma letra para aquela melodia ao ler o poema de Dolores optou por rasgá-la .Achou a de Dolores melhor. Dai o para frente foram não só letras mas também músicas cada vez mais bonitas e de forte apelo popular.
Entre suas músicas há a famosíssima A Noite de Meu Bem, feita para um dos seus muito namorados Nonato Pinheiro “ Solidão”,a igualmente famosa “Fim de caso”. Também assinou o mega clássico Estrada do Sol em parceria com Tom Jobim. Ainda compôs O Negócio é Amar outro clássico “ Castigo” a já citada Por causa de Você” , “Leva-me Contigo”, “Arrependimento”, “ “Ternura Antiga” e “Ideias Erradas” e muitas outras em apenas quatro anos sendo quinze destas músicas clássicos do nosso cancioneiro. E quase não teve tempo para gravar suas próprias canções (gravou sete delas em vida).
Seus parceiros eram além de Tom Jobim, o empresário Fernando César, o publicitário Edson Borges (cujo apelido era Passarinho), o pianista J. Ribamar, Edson França conhecido como Edinho (da primeira formação só Trio Irakitan) e postumamente também Carlos Lyra Billy Branco, Lúcio Alves e Oscar Castro Neves além do comediante Chico Anísio.
A maioria das letras que ela compunha era triste. Com isso podemos indagar: o estado de espírito das músicas correspondia a personalidade da cantora ?
A maioria das pessoas que conviveram com ela testemunham que ela tinha uma personalidade diferente do estado de espírito de suas músicas. Era uma pessoa alegre e brincalhona mas muito observavam também uma pessoa um tanto introspectiva e angustiada. Em termo de conteúdo suas letras rezavam a cartilha da mulher dos anos 50. Em geral ela relevava as falhas do ser amado e se colocava numa postura submissa ao homem com direito a arrependimentos típicos dos corações atormentados da Era do Samba- Canção. Por outro lado eram letras muito bem escritas, num tom coloquial que faz com que nenhuma palavra fique ultrapassada mesmo já tendo se passado cinco décadas. E se pusermos as canções fora do contexto da época veremos que elas podem ser cantadas hoje sem que fique evidenciado nenhum machismo implícito ou dramalhão excessivo.

A Filha

Pouco antes da morte de Dolores, uma recém-nascida negra órfã foi parar nas mãos de sua empregada e esta não sabia o que fazer com a criança. Dolores decidiu adotar a menina que hoje é sua herdeira e chama-se Maria Fernanda Virgínia da Rocha Macedo.

Morte

Desde pequena Dolores apresentava problemas cardíacos. Com oito anos lhe foi diagnosticado uma febre reumática doença que comprometia o coração a longo prazo. A cantora desmaiava com facilidade sentia taquicardia e dores no peito
Os médicos haviam lhe alertado que ela não teria vida longa e que para prolongá-la ela teria que ter uma vida mais regrada. Não podia beber, nem fumar e também não trocar o dia pela noite prescrições que a cantora se recusou a cumprir. Ela adorava uísque, fumava três maços de cigarro por dia e chegava em casa todo dia ao amanhecer. Preferia viver menos e mais intensamente do que se privar das coisas que mais gostava na vida.
Dolores Duran morreu dormindo no dia 24 de outubro de 1959 com apenas 29 anos de idade. Ao chegar em seu apartamento como sempre depois de mais uma noite vivida intensamente, ao amanhecer, apenas brincou com a empregada: “Não me acorde, estou cansada. Quero dormir até morrer.