terça-feira, 14 de novembro de 2017

Jose Mojica


José Mojica

José Mojica nasceu no dia 14 de setembro de 1896 na cidade de São Miguel, Estado de Jalisco no México. Estudou agricultura, piano e pintura. O canto não era um de seus interesses. Confessaria mais tarde que nunca teve paixão pelo canto e sim pela pintura.
Suas qualidades potenciais são reconhecidas pelo célebre maestro mexicano Cuevas. Em busca da fama e da fortuna parte em 1916 para Nova Iorque integrando um conjunto formado por Carmem Garcia Cornejo, soprano, Angel Esquivel, barítono e Júlio Peimbert pianista, sendo empresariados por Maria Grever, notável compositora mexicana de futuro renome mundial. Não alcança sucesso devido a falta de oportunidades. Convidado a se juntar a uma grande companhia de óperas em vias de ser montada da noite para o dia vê-se ao lado de nomes célebres da cena lírica mundial. Daí em diante sua ascensão profissional não teria percalços ou barreiras. Terminada a temporada começa outra com a presença do maior astro do bel canto mundial Enrico Caruso do qual se torna amigo. No final de 1919 volta aos Estados Unidos numa situação bem diferente da primeira vez já contratado pela Chicago Opera Company. Além dos rendimentos cada vez maiores no palco tem a oportunidade de gravar seus primeiros discos na Odeon.
Mojica vai alternando concertos nos Estados Unidos e México. Enquanto sua carreira profissional ia cada vez melhor, dando-lhe condições de proporcionar toda a assistência e conforto a sua mãe com a qual sempre morou, sua alma continuava inquieta em busca de algo maior que desse sentido a sua vida. Procurou respostas em outras religiões e filosofias e teve períodos em que não professou fé alguma. Por fim volta a fé católica pelo caminho de uma devoção particular a São Francisco de Assis, o santo dos pobres.
Em 1929 é convidado pela Fox para trabalhar em Holywood em filmes falados e cantados em espanhol pois além da voz encarnava o tipo ideal de galã exigido pelos roteiros melodramáticos. Assim é o astro de O Preço de um Beijo em duas versões, um extraordinário sucesso em diversos países de língua espanhola.
Outros filmes se seguiram como Príncipe, Rei dos Ciganos, A Cruz e a Espada, As Fronteiras do amor, A Canção do milagre e outros. Seus discos então eram um sucesso de vendas.. Muito de seus êxitos até hoje são páginas clássicas. Cada uma de suas apresentações na América Latina, Europa e Norte da África constituía-se em consagração. Nada neste mundo lhe faltava mas no seu espírito continuava um vazio que só uma completa dedicação a Deus haveria de preencher.
Em 1941 estava filmando na Argentina, em Buenos Aires Melodias da América quando recebe a notícia do falecimento de sua mãe. Decide então entrar para o convento franciscano de Recoleta  na cidade de Cuzco no Peru que já conhecia. Dá seu último concerto e viaja para o México a fim de distribuir sua fortuna. Em 1942 recolhe-se a clausura e no ano seguinte recebe as ordens menores.
Em 1946 é ordenado padre adotando o nome de Frei José Francisco de Guadalupe. Continua se apresentando artisticamente mesmo depois de ordenado sacerdote pois havia notado que ainda poderia com sua arte e fama obter recursos para obras de caridade e divulgar a religião, conseguindo de seus superiores a autorização para apresentar-se cantando músicas profanas. É o que passa a fazer em novas excursões pelo mundo e em filmes sempre porém vestindo o hábito de frei franciscano. Por causa de problemas circulatórios que afetaram sua perna direita vem a falecer na idade de 78 anos em 20 de setembro de 1974 na cidade de Lima, Peru.
Jose Mojica 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Nelson Cavaquinho


Nelson Cavaquinho

Juízo Final (Nelson Cavaquinho- Guilherme de Brito)

O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer
O amor será eterno novamente
O amor será eterno novamente

Vida

Ele era um dos seis filhos da lavadeira Maria Paula da Silva que teria origem índia e paraguaia e de Brás Antônio da Silva, um contramestre negro da Banda da Polícia Militar que tocava tuba.
Sua data de nascimento verdadeira suscitou polêmica. Nelson Antônio da Silva nasceu na rua Mariz e Barros, próximo a praça da Bandeira em 28 de outubro (para uns 29 de outubro) de 1911 no Rio de Janeiro. Mas o ano seria alterado para 1910 pelo pai para inscrevê-lo na Polícia Militar. Foi criado na Lapa no centro do Rio, reduto da malandragem e da boêmia onde conheceria valentões como Brancura, Miguelzinho da Lapa, Itália. O quartel do pai ficava perto na rua Evaristo da Veiga onde também havia uma escola primária, que ele frequentaria por pouco tempo. A mãe lavava roupa para as freiras Carmelitas do convento de Santa Teresa, próximo aos Arcos da Lapa.
Ali o menino aprendeu catecismo e tornou-se fervoroso cristão apesar de viver na boêmia. Além do pai, o tio era músico, violinista o que instigou o garoto a improvisar um instrumento próprio, utilizando uma tampa de caixa de charuto e barbantes esticados. Pressionada pelo dinheiro curto a família mudou-se para o longínquo subúrbio de Ricardo de Albuquerque onde Nelson foi obrigado a contribuir para o orçamento familiar. Trabalhou como tirador de espolim (resíduos têxteis) numa fábrica de tecidos em Deodoro. Na rua do Senado, no Centro também, durou pouco como ajudante de eletricista. Tentou, igualmente sem sucesso, o futebol num clube de Várzea chamado Barreira onde atuou na ponta direita e jogou com futuros titulares do América e Madureira.
Depois a família foi morar na Gávea, na zona sul do Rio. O bairro, hoje de classe média alta, na época concentrava muitas fábricas e perto de 50 mil operários como Nelson. Ele preferia frequentar os clubes recreativos locais como Chuveiro de Ouro, Carioca Musical e Gravatá, onde conheceu músicos como Juquinha (que o adestrou no cavaquinho chorão) Mazinho do Bandolim e Edgar Flauta da Gávea. Alguns deles formaram um conjunto e convocaram o iniciante, que aos 16 de anos já assinara a primeira composição, o choro “Queda”. O título definia o desafio entre bambas do ramo, cada um pretendendo derrubar o outro nos improvisos. De volta ao centro da cidade foi trabalhar como bombeiro hidráulico e passou a frequentar uma roda de choro na rua da Conceição, onde conheceu os irmãos Romualdo e Luperce Miranda o segundo um renomado virtuose do bandolim.
Seu primeiro casamento foi com Alice Pereira Neves. A falta de recursos obrigou o pai a pôr o filho para trabalhar na Polícia Militar como única forma de conseguir renumeração para o filho rebelde. Mas não adiantou nada. O filho preferia confraternizar com outros sambistas no Morro da Mangueira que ele patrulhava.. As constantes punições por indisciplina acabaram resultando na baixa da corporação do soldado boêmio em 1938. Ainda trabalhou em cortume e como operário por empreitada.

Estilo
Nelson Cavaquinho não teve uma carreira artística no sentido formal do termo. Sua música fez dele o cantor da melancolia e das angústias existenciais. Apesar do compositor não ter ultrapassado o curso primário os temas de sua música guardam estreita relação com a psicanálise de Freud. Em sua obra ele abordou todos os arquétipos freudianos e o tema principal de sua obra: a morte.
Ousou compor uma música que falava de necrofilia(a obsessão e fixação sexual por cadáveres):

Depois da Vida (Nelson Cavaquinho/ Guilherme de Brito/ Paulo Gesta)

Passei a mocidade esperando dar-te um beijo
Sei que agora é tarde, mas matei o meu desejo
È pena que os lábios gelados como os teus
Não sintam o calor que eu conservei nos lábios meus
No teu funeral está tão fria assim
Ai de mim e dos beijos meus
Eu te esperei minha querida
Mas só te beijei depois da vida.


Guilherme de Brito

Guilherme de Brito Bollhorts(1922-2006) foi o principal e constante parceiro de Nelson. De família empobrecida após a morte do pai, Guilherme empregou-se como office boy na lendária Casa Edson a primeira fabricante de discos no país, onde trabalharia, já no setor de máquinas até aposentar-se.

È da dupla a música “A Flor e o Espinho”

A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho- Guilherme de Brito- Alcides Caminha)

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com minha dor
Hoje para você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh ´alma a tua
O sol não pode viver perto da lua
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
A minha dor e os meus olhos rasos d´água
Eu na sua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor.

Momentos finais

Da vida pessoal conturbada do artista sabe-se pouco apenas que a última esposa, Durvalina Maria de Jesus (a quem dedicou Minha Festa) teria tolerado até o final o comportamento boêmio do marido. Em meados dos anos 60, Nelson ganhou uma casa do governo estadual na Quincas Laranjeira, 158, na Vila Esperança no distante subúrbio de Jardim América. Encerraria seus dias mesmo bairro mas já na rua Franz Liszt (no número 288) homenagem ao extraordinário compositor e virtuose do piano húngaro.
Nelson sabia cultivar sua lenda pessoal. Gostava de repetir uma história: de noite teve um pesadelo: morreria ás três da manhã. Acordou ás 2:45 e atrasou o relógio. Na vida prática ele nunca se preocupou com horários.
Sobre a morte tema básico e constante de sua obra ele dizia dando uma explicação sobre seu processo criativo
_ Eu não tenho medo de morrer. É por isso que falo muito na morte. Sei que vou desencarnar aqui e espero nascer em outra vida.
Teve seu melhor disco gravado em 1973 na Odeon produzido pelo paulista J.C. Botezelli apelidado de Pelão.
Era fumante compulsivo e bebia muito. Foi internado na clínica Monte Sinai no Jardim América, em dezembro de 1985. Ele morreria no dia 18 de fevereiro de 1986 de enfisema pulmonar logo após mais um carnaval vitorioso pela Estação Primeira de Mangueira escola de samba do coração.
Foram prestados a ele muitos tributos póstumos por outros artistas da música popular brasileira.

Vou Partir (Nelson Cavaquinho/ Jair do Cavaquinho)

Vou partir
Não sei se voltarei
Tu não me queiras mal
Hoje é carnaval
Partirei para bem longe
Não precisa se preocupar
Só voltarei pra casa
Quando o carnaval acabar, acabar
(Vou partir)
Vou partir
Não sei se voltarei
Tu não me queiras mal
Hoje é carnaval
Partirei para bem longe
Não precisa se preocupar
Só voltarei pra casa
Quando o carnaval acabar, acabar.





domingo, 12 de novembro de 2017

Os Cariocas


Os Cariocas

Tim tim por tim tim ( Geraldo Jacques- Haroldo Barbosa)

Você tem que dar, tem que dar
O que prometeu meu bem
Mande o meu anel de volta
Eu lhe mando o seu também
Mande a carta em que eu dizia
O amor não tem fim
Que eu lhe mando outra explicando
Tim-tim por Tim- tim
Você tem que devolver
O que era meu, meu bem
Mande seu retrato e ponha outro em seu lugar
Morreu um rei, salve o rei que vai chegar
Não sei sofrer, não sei chorar
Eu sei me conformar

História

O conjunto vocal mais antigo do mundo em atividade formado em 1942 e profissionais desde 1946 constituído em sua origem pelo líder Ismael Neto, Severino Filho, Badeco (Emanoel Furtado), Quartera ( Jorge Quartaroni) e Waldir Viviani surgiu por iniciativa do paraense Ismael Neto que sonhava com um conjunto vocal que fosse além da mera diversão de vizinhos ou de adolescentes para apresentar-se em programas de auditório e virar um formação profissional. Ismael sonhava com um som que fosse transposto para cinco vozes em vez de normalmente a três vozes que compunham os conjuntos vocais brasileiros.
Para isso, no sótão da casa da vila em que morava com seus pais na Tijuca, Ismael juntou-se ao seu irmão Severino Filho de 14 anos e três vizinhos; Ari, Salvador e Tarquínio. Ao escolher um nome para o conjunto descartou os nomes que habitualmente batizavam os conjuntos vocais brasileiros- a ideia fixa era a Lua- e escolheu os Cariocas., embora nem ele nem Severino fossem nascidos no Rio; eram de Belém do Pará.
Quanto a Ari, Salvador e Tarquínio seus primeiros companheiros de jornada foram substituídos por outros meninos da vizinhança e estes por sua vez por ainda outros, á medida que o conjunto começou a se apresentar em festinhas de bairro. Em 1945, com uma formação improvisada,os Cariocas se apresentaram no programa de calouros Papel Carbono de Renato Murce na Rádio Clube e pegaram o segundo lugar – perderam o primeiro prêmio para um garoto assobiador. Mas Murce gosto do que viu e recomendou que o grupo se inscrevesse para uma próxima vez. Na segunda vez, os Cariocas tiraram o primeiro lugar ( cantando Rum and Coca-Cola sucesso das Andrew Sisters) e tornaram-se atrações frequentes do programa.
Outros pais talvez vissem naquilo uma ameaça de profissionalização e um obstáculo a que os rapazes continuassem se dedicando aos estudos. Mas o talento de Ismael e de Severino era tão visível que em fevereiro de 1946, Severino Silva, pai deles conseguiu um teste para o conjunto na Rádio Nacional. A banca examinadora era formada só por gente graúda na música popular brasileira, o maestro Radamés Gnattali. o produtor e letrista Haroldo Barbosa e o radialista e pesquisador Paulo Tapajós. Foi feito o teste e Os Cariocas não vacilaram. No dia seguinte veio o convite para se integrarem ao elenco do principal musical da emissora, Um Milhão de Melodias, patrocinado pela Coca-Cola, com orquestra regida por Radamés.
A Morte de Ismael

Ismael Neto tinha uma afinidade especial com a música. Seu gênio para a harmonização das vozes tornou-o admirado por homens tais como Radamés Gnatalli, Lyrio Panicalli e o compositor erudito Heitor Villa Lobos.
O que se destacava neste líder era a disciplina que ele impunha a seu conjunto embora pessoalmente ele fosse o indisciplinado modelo. Boêmio era um eufemismo muito simples para definir Ismael.
Seu porte físico que lembrava um herói de quadrinhos popular na época podia explicar sua resistência.. Em fins de 1955, Ismael saiu direto de uma hepatite mal curada para os chopes com genebra no Bar da Zica indiferente ao fato que tinha um grave problema de fígado. Mas não foi fígado que o matou. No começo do ano seguinte foi atacado por uma pneumonia e já entrou em pré-coma no hospital morrendo em meia hora. Ismael era diabético e não sabia. Tinha 31 anos.
Seu irmão Severino Filho assumiu com naturalidade o papel de líder do conjunto.

A Bossa Nova

Nada mais natural que a aproximação entre a bossa nova e os Cariocas. Depois de terem participado de uma gravação de “ Chega de Saudade “ com a cantora Elizeth Cardoso e acompanhados por ninguém menos que João Gilberto, o conjunto reaproximou-se de Tom Jobim e Billy Branco de cuja Sinfonia do Rio de Janeiro tinham participado e do compositor Carlos Lyra que também tivera uma música gravada por eles dois anos antes na Continental: Criticando.
A aproximação deu-se com os demais representantes da bossa nova por intermédio de Ronaldo Bôscoli e Lúcio Alves. Foi quando- ao lado de Lúcio, Sylvinha Telles, Aalyde Costa e outros, no dia 2 de dezembro de 1959, Os Cariocas participaram do show de bossa nova transmitido ao vivo do auditório da Radio Globo, na rua Irineu Marinho. Era a primeira vez que a bossa nova entrava no ar para milhares. Já reduzidos aos quatro elementos que passariam ser sua formação definitiva eles cantaram “ Chega de Saudade” e de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini “Menina Feia” com sua vozes mais afiadas do que nunca. Os Cariocas estavam fechando o ciclo que tinham começado 11 anos antes em 1948 com ' Adeus América”. A bossa nova era a música que eles e todo os conjuntos vocais brasileiros do passado haviam sonhado desde o começo.

A Morte de Luiz Roberto
Em 1967, decepcionados com o rumo que a música popular brasileira estava tomando principalmente nos festivais de música os Cariocas resolveram interromper suas atividades.
Voltaram a se apresentar profissionalmente no dia 20 de outubro de 1988 no palco do Jazzmania.
Os Cariocas adentraram o palco do Jazzmania sob uma torrente de aplausos e nem deixaram a plateia respirar. Atacaram de “Samba do Avião” de Tom Jobim. A plateia que estava vendo eles estava em êxtase.
Veio o intervalo e na volta retomaram o repertorio de seus clássicos mais antigos dos anos 40 e 50 sem a qual a bossa nova provavelmente não teria existido: “ Adeus América” Tim-tim por tim- tim de Geraldo Jacques e Haroldo Barbosa. “ Nova Ilusão” de Zé Menezes e Luiz Bittencourt e Canção da Volta do próprio fundador dos Cariocas Ismael Neto e Antônio Maria. E dando um salto de décadas começaram a cantar “ Tema para Lúcia” a homenagem do líder Severino a sua filha, a atriz Lúcia Veríssimo feita quando ela tinha doze anos. Lúcia sentada na primeira fila fora a responsável pela sonorização e iluminação do espetáculo. Foi então que Luiz Roberto na verdade o solista do conjunto interrompeu o número suando muito e pediu mais um intervalo.
Severino e seus colegas se entreolharam. Luiz Roberto foi aplaudido ao caminhar em direção á passagem que levava ao camarim., seguido pelos outros. Badeco fez menção de ampará-lo mas Luiz Roberto não permitiu.
Um médico não por acaso na plateia chegou aos bastidores em menos de um minuto: O Dr. Paulo Sérgio Oliveira cardiologista do cantor. Assim que ouvira o pedido de intervalo, compreendera imediatamente a situação e rumara para trás da cozinha onde ficava o camarim. Aliás não tinha ido ao Jazzmania não apenas pela música mas para estar a postos no caso de uma emergência. Encontrou uma ambiente de choro e desespero: Luiz Roberto inconsciente, estendido num sofá com um quadro agudo de infarte e praticamente morto. Pelos minutos seguintes,o cardiologista aplicou-lhe massagem cardíaca e respiração boca a boca. Não havia outros recursos, nem tempo para uma ambulância, uma remoção ou pronto socorro. Em instantes, Luiz Roberto estava morto.
Os colegas de conjunto sabiam que os problemas circulatórios de Luiz Roberto vinham de muito tempo. A tensão de voltar a cantar com os Cariocas pode ter interferido mas nem tanto- afinal há mais de um ano se preparavam para aquela noite, repassando incansavelmente os arranjos no apartamento de Severino, na rua Cupertino Durão, no Leblon e fazendo as cordas vocais recuperarem a antiga forma. Um mês antes já haviam feito algumas apresentações experimentais e tudo dera certo. E mesmo naquele dia tinham passado o som ensaiando de duas das tarde até oito da noite no Jazzmania. Depois cada qual tinha ido para sua casa para tomar um banho e relaxar antes de voltar para o espetáculo. Luiz Roberto que morava em Jacarepaguá fizera tudo isso sem alteração. Mas no caminho da boate tinha acontecido um incidente.
No entrocamento da rua Gomes Carneiro onde ficava o Jazzmania com a rua Visconde de Pirajá em Ipanema, um carro em sentido contrário quase se chocara com seu fusca. Com Luiz Roberto estavam mulher e filho. Ele se desviara mas por pouco não tinham sido atingidos e morrido ali mesmo. Luis Roberto era cardíaco e safenado e aquilo não era a melhor coisa que podia ter acontecido perto de um evento que iria comovê-lo.
O público seguia inocente do que estava passando ali dentro. A suspeita só começou quando alguém saindo dos bastidores confidenciou para um amigo que um dos Cariocas estava passando muito mal. Dali a pouco Michel Domingos, divulgador do Jazzmania subiu ao palco e muito emocionado explicou que os Cariocas não iriam mais voltar. No camarim, Badeco era o que estava mais inconsolável.
A informação logo se espalhou para fora da boate e pelas outras casas noturnas da cidade.
Luiz Roberto entrara no conjunto aos vinte e dois anos descoberto por Severino que o vira tocando guitarra e cantando na própria orquestra que dirigia paralelamente aos Cariocas. Luiz Roberto adaptara-se a o contrabaixo, herdara os solos vocais num belo estilo seresteiro em contraste com a dicção cortante dos demais e assim formados os Cariocas abraçaram definitivamente a bossa nova.


Oura vez a bossa nova

Pelos cinco seguintes até 1967, o conjunto gravou seis Lps da Phillips a gravadora que graças aos produtor Armando Pitganarri melhor entendeu o conjunto e o deixou trabalhar. A bossa nova correspondeu e presenteou os Cariocas com quase vinte canções inéditas para serem inauguradas e transformadas em clássicos por eles. Entre as canções, “ Ela é Carioca” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes ( composta a pedido deles), “ Inútil Paisagem “ de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira , “Também quem mandou” de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes e “ Domingo Azul” de Billy Blanco.

A Nova Formação.

Com sua nova formação devido a saída de Badeco e Quartera por razões particulares os Cariocas passaram se apresentar constantemente.
A nova formação dos Cariocas é : Severino Filho 80 anos piano e 1 voz. Eloi Vicente, 60 anos violão e 4 voz e solos, Neil Carlos Teixeira 39 contrabaixo e 3 voz e Hernan Castro 37 bateria e 2 voz.
Severino Filho, o único remanescente da formação original, faleceu no dia 1 de março de 2016.

Ela é Carioca ( Antônio Carlos Jobim- Vinícius de Moraes)

Ela é carioca
Ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho
assim para dar
Eu vejo na cor de seus olhos
As noite do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar
Ela é meu amor, só me vê a mim
A mim que vivi para encontrar
Na luz do seu olhar
A paz que sonhei
Só sei que sou louco por ela
E para mim ela é linda demais
E além do mais
Ela é carioca
Ela é carioca

sábado, 11 de novembro de 2017

Sylvia Telles


Sylvia Telles

Dindi ( Antônio Carlos Jobim- Aloysio de Oliveira)

Céu , tão grande é o céu
E bandos de nuvens que passam ligeiras
Pra onde elas vão
Ah ! eu não sei, não sei
E o vento que fala nas folhas
Contando as histórias
Que são de ninguém
Mas que são minhas
E de você também
Ah ! Dindi
Se soubesses do bem que eu te quero
O mundo seria Dindi, tudo, Dindi
Lindo, Dindi
Ah ! Dindi
Se um dia você for embora me leva contigo Dindi
Fica Dindi, olha Dindi
E as águas deste rio aonde vão eu não sei
A minha vida inteira esperei, esperei
Por você Dindi
Que é a coisa mais linda que existe
Você não existe, Dindi
Olha, Dindi
Advinha, Dindi
Deixa, Dindi
Que eu te adore, Dindi... Dindi

Vida
A famosa cantora e intérprete da bossa nova Sylvia Telles nasceu no Rio de Janeiro no dia 27 de agosto de 1935. Era filha de Paulo Telles, paulista de origem, de uma família de juristas e intelectuais. Seu irmão chamava-se Mário Telles. Sua mãe, Dona Maria, era francesa de nascimento.
Sylvia estudou no colégio Sacre Couer de Marie situado no bairro das Laranjeiras. Fazia dança com a professora Madeleine Rosay do Corpo de Baile do Teatro Municipal.
O irmão de Sylvia ajudava o pai a tocar o negócio da família, no ramo de tecidos. Era amigo de João Gilberto o famoso compositor que inaugurou a famosa batida da bossa nova. Mas o que empolgava de verdade o irmão de Sylvia eram os conjuntos vocais e a intimidade que ele tinha com um deles Os Garotos da Lua, do qual João Gilberto fazia parte. Era amigo de dois integrantes do conjunto, Jonas e Acyr que trabalhavam nas lojas Murray como balconistas encarregados da venda de discos. As lojas de disco geralmente eram lojas de eletrodomésticos que também vendiam discos.
Com essas amizades, a casa do pai de Sylvia Telles era muito frequentada por vocalistas o que chamou a atenção de Sylvia a irmã caçula da família que também gostava de cantar. Foi ai que a artista descobriu sua vocação.

O Evento no Grupo Hebraico

Sylvia acabou participando de um humilde evento que a transformou numa das percursoras da bossa nova. Foi quando aceitou convite de Moisés Fuks, jornalista, e presidente do Grupo Universitário Hebraico um modesto centro de estudantes israelitas a quem Fuks tentava animar promovendo pequenos espetáculo musicais nas noites de quarta -feira. Mas como os estudantes sofriam com a falta de dinheiro o normal é que o palco da associação fosse ocupado por associados amadores que tinham alguma vocação artística.
Pensando em mudar esta situação, Fuks acionou o conhecido Ronaldo Boscoli jornalista do Última Hora para convocar um pequeno grupo de jovens que se reuniam no apartamento de uma garota chamada Nara ( a futura cantora e intérprete da bossa nova Nara Leão) namorada de Bôscoli.
Esses garotos eram Carlos Lyra, Chico Feitosa, Normando Santos e a própria Nara, Roberto Menescal, também futuro nome importante da bossa nova que tocava violão e já era semiprofissional e músicos como o saxofonista Bebeto Castilho, o trompista Bill Horn, o contrabaixista Henrique, o baterista João Mário e muitos outros todos principiantes. Bôscoli que era letrista e por ser mais velho tinha mais influência moral no grupo gostou da ideia de ver seus amigos se apresentando num palco de verdade. Mas como todos eram ainda solidamente desconhecidos ele temia que não atraíssem muita gente e então pensou em alguém já famoso.
Foi aí que apareceu o nome de Sylvia Telles que era amiga de Ronaldo e dos jovens.
Sylvia estava com vinte e três anos na época. Já era cantora famosa e com forte reputação artística, até na televisão. Era o dia 24 de agosto de 1958. Sylvia aceitou o convite de forma generosa e humilde para se apresentar com um grupo de anônimos num espetáculo gratuito que a princípio nada lhe renderia. Pois não só chegou na hora combinada como cantou seu maravilhoso repertório e fez questão de dividir os aplausos como os outros jovens que mal acreditavam no que estava acontecendo.

Os Primeiros Shows da Bossa nova

O primeiro grande show universitário da bossa nova foi no anfiteatro da Faculdade Nacional de Arquitetura, na Praia Vermelha no dia 22 de setembro de 1959 comandado por Ronaldo Bôscoli e novamente estreado por Sylvia Telles que se chamaria Samba- Session. Somente o espetáculo seguinte na Escola Naval no dia 13 de novembro é que seria chamado de Segundo Comando Da Operação Bossa Nova tendo sido o da Faculdade de Arquitetura o primeiro.
Até então a bossa nova não se designava por este nome. Ser “bossa nova” significava ter qualquer atitude diferente do usual. O grupo que Ronaldo conhecia da casa de Nara Leão era diferente portanto bossa nova.
Foi o que ele escreveu no release sobre o que seria apresentado naquela noite no Grupo Universitário Hebraico- uma noite bossa nova – e que pediu a secretária do Grupo Hebraico Lia Strauch para mimeografar e mandar pelo correio aos associados. Foi também a expressão que Lia usou no quadro-negro no próprio dia do espetáculo:

HOJE- SYLVIA TELLES E UM GRUPO BOSSA NOVA

Acontece que terminado o show, Ronaldo Bôscoli gostou tanto da expressão que juntamente com Fuks passou a repeti-la nas notícias que plantava sobre a turma nos jornais.

Discos

Sylvia Telles lançou seu primeiro LP pela Odeon de 10 polegadas com oito faixas intitulado Carícia, em que ela aparecia vestida de egressa do Lago Dos Cisnes e no qual cantava composições de gente que os colegas de Nara admiravam: Tom Jobim e Newton Mendonça (“Foi a Noite”), Garoto (“Duas Contas”) Tito Madi (“Chove Lá Fora”) Ismael Neto ( com Antônio Maria) “Valsa de Uma Cidade”). A Odeon fazia grandes planos para ela.
A Odeon poderia ter garantido com tranquilidade o monopólio da bossa nova quando em 1960 temendo justamente isso a Philips provocou a primeira grande fissura no movimento atraiu Carlos Lyra para suas cores com a promessa de lançá-lo num disco individual.
Pouco depois, em 1961, foi o próprio Aloysio de Oliveira (produtor, diretor de gravadora e marido de Sylvia) que se deixou seduzir pela Philips e levou com ele de saída Sylvinha, Lúcio Alves,o maestro Lindolfo Gaya e César Vilela e o fotógrafo Chico Pereira responsáveis por ser a primeira dupla gráfica da bossa nova e que criaram as famosas capas em cores do movimento.
Pouco depois Aloysio desentendeu-se com a Philips e com ao apoio do professor Celso Frota (padastro de Tom Jobim) fundou o selo Elenco.
Em toda as gravadoras por que passou Aloísio produziu grandes discos principalmente os de Sílvia Telles entre os quais um dos discos que consolidou a bossa nova Amor de Gente Moça.
Também cantou em Bossa Balanço , Balada pela Odeon onde cantou ao lado de Lúcio Alves.

Morte

Aloysio de Oliveira planejava uma carreira internacional para Silvia de quem se divorciara, afinal sua agora ex- mulher dominava perfeitamente o inglês e o francês.
Na madrugada no dia 17 de dezembro de 1966 um sábado Sylvia entrou em seu Fusca tendo ao lado sua cadelinha Nicole e seu ex-namorado Horácio de Carvalho Jr. e partiram pela Rodovia Amaral Peixoto, rumo a Maricá. Sylvia iria gravar um disco nos Estados Unidos mas adiara a gravação para depois do Natal.
O dia começava a nascer quando de repente o Fusca ziguezagueou pela pista no quilômetro 24 da estrada, Entrou debaixo de um caminhão carregado de abacaxis, foi brutalmente arrastado por ele e despencou num matagal, alguns metros abaixo. Os dois morreram na hora. A Polícia Técnica do estado do Rio concluiu que o motorista Horacinho dormira no volante.
Silvia Telles tinha apenas 31 anos de idade.

Foi a Noite ( Antônio Carlos Jobim- Newton Mendonça)

Foi a noite. foi o mar eu sei
Foi a lua que me fez pensar
Que você me queria outra vez
E que ainda gostava de mim
Ilusão eu bebi talvez
Foi o amor por você bem sei
A saudade que aumenta a distância
E a ilusão feita de esperança
Foi a noite
Foi o mar eu sei
Foi você

Esta gravação realizada em 1956 foi uma das gravações pioneiras da bossa nova que começou o gênero e consolidou Sylvia Telles como uma das grandes intérpretes do gênero.

Para ver uma interpretação de “ Foi a Noite” na voz da própria Sylvia Telles( interpretação tirada do disco Carícia “ ver o link :

https://www.youtube.com/watch?v=WWvYUpKhVd0


Ernesto Nazareth


Ernesto Nazareth

Pianista-compositor na tradição de Liszt e Chopin ou pianeiro “ chorão” dos salões e cinemas cariocas ? Ernesto Nazareth, compositor carioca que é estudado tanto no campo da música popular quanto no da música erudita autor de “ Odeon”, Brejeiro” e “ Apanhei-te Cavaquinho” está representado com igual destaque nas obras de referência sobre música popular e música erudita brasileira.
Ele dedicou suas obras, valsas, tangos e polcas brasileiros a seus maiores contemporâneos eruditos tais como o compositor Henrique Oswald, filho de suíço e a seu colega de cinema Odeon, Heitor Villa-Lobos que também lhe dedicou uma obra ( O Choro n 1 para violão solo).
Claro que em uma sociedade desigual como a da belle époque brasileira em que as cicatrizes de um sistema escravocrata recém- abolido ainda se faziam muito visíveis, a música também era sinônimo de distinção social.
Assim é que quando, na década de 20, Villa-Lobos pediu apoio oficial para viajar a Paris, um de seus mais apaixonados defensores foi Gilberto Amado ( 1887-1969). O flautista e saxofonista Pixinguinha e seus Oito Batutas tinham acabado de fazer, na França, um sucesso que incomodava a elite nacional e segundo Amado era fundamental enviar Villa-Lobos para a Europa com o intuito de mostrar que nossa arte era muito mais elevada que a música que Pixinguinha e seus colegas representavam.
No caso de Nazareth, causou escândalo a ideia do compositor cearense Alberto Nepomuceno (1864-1920) que havia se formado na Europa e regido a Filarmônica de Berlim e como diretor do Instituto Nacional de Música, era uma das figuras musicais mais proeminentes da República de incluí-lo entre os participantes dos concertos que em 1908 celebravam o centenário da abertura dos portos brasileiros “as nações amigas” por Dom João VI. A elite nacional não aceitou um nome da música popular em um concerto de música erudita.
Ernesto Júlio de Nazareth nasceu em 20 de março de 1863, no morro do Nheco, na região da Cidade Nova, no Rio de Janeiro, segundo filho de Vasco Lourenço da Silva Nazareth e Carolina Augusta Pereira da Cunha de Nazareth. Seus irmãos eram Vasco Filho, Júlia Adélia, Maria Carolina e Brizabela que morreu aos três anos.
Seu pai trabalhava como despachante aduaneiro no porto do Rio de Janeiro. Sua mãe dedilhava o piano da família- porque em uma época que ainda não havia rádio ou discos, esse era o único meio de ter música em casa.
Foi assim pelas mãos de Carolina que todos os filhos do casal iniciaram seus estudos musicais e ao que parece Ernesto foi de longe o que manifestou maior interesse. Em 1873, contudo o aprendizado se interrompeu com seu falecimento precoce e inesperado da mãe do compositor.
No mesmo ano, Ernesto então com dez anos caiu de uma árvore sofrendo hemorragia no ouvido direito. Foi o inicio de problemas auditivos que ao acompanhariam a vida inteira e que em seus anos finais agravados pela sífilis, teriam a surdez como consequência.
Depois da perda de Carolina, a família se mudou para a rua Berço de Ouro e Vasco, de luto, proibiu Ernesto de tocar piano. A tristeza e o isolamento em que o menino caiu depois da interdição, contudo, levaram o pai a rever sua decisão e a contratar Eduardo Madeira para prosseguir com sua educação pianística.
Aos 16 anos de idade, Nazareth saiu-se com sua primeira obra- para piano solo. Tratava-se da polca- lundu “ Você bem sabe”.
A escravidão ainda não tinha sido abolida nem a República proclamada quando Nazareth se casou em 1886 com Theodora Amalia Leal de Meirelles. A família não demorou a crescer, em 1887 nasceu a primeira filha do casal Eulina, primeira dos seis filhos do compositor.
Para sustentar a família, Nazareth levava adiante o ofício que então era chamado algo pejorativamente, de pianeiro, dedilhando o instrumento em casas de venda de música ( como demonstrador, executando as partituras negociadas a seus eventuais compradores.) A renda também era complementada com aulas de piano,
O único emprego com registro que teve foi o de terceiro escriturário do Tesouro Nacional em 1907, função interina, do qual se desligou em poucos meses, devido ao fato que para sua efetivação, teria que prestar um concurso público que exigia conhecimento da língua inglesa.
As músicas de Ernesto Nazareth foram denominada por ele mesmo de tangos que nada tem a ver como os similares portenhos. Olhando de perto, a denominação de tango brasileiro nada mais parecia que a denominação respeitável que se dava a uma “ selvagem”, “lasciva” e sincopada dança afro-brasileira de grande sucesso naqueles tempos: o maxixe.
O estigma contra este tipo de música era tão forte que o presidente da República Marechal Hermes da Fonseca ( 1855-1923) chegou a baixar um decreto que proibia a execução de peças do gênero por bandas militares.
E o próprio Nazareth não apreciava que suas obras para piano fossem tomadas como pertencentes a este estilo considerado música reprovável. È mencionado a repugnância do músico diante da confusão que faz com que seus tangos fossem chamados de maxixes.
Com o caminho aplainado pela propaganda modernista, tudo parecia propício a conquista da Pauliceia pelo autor de Odeon. Em 1926, aos 63 anos de idade, ele saia de seu Estado Natal pela primeira vez para ter a mais calorosa das acolhidas.
Teve direito a Festival Nazareth, recitais no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e a grande consagração: um concerto no Teatro Municipal, promovido pela Sociedade de Cultura Artística e precedido de conferência de Mário de Andrade.
De volta ao Rio de Janeiro, Nazareth sentia a audição declinar. Em 1929 ano em que Francisco Alves, o Rei da Voz gravou “ Favorito”( com letras de autor desconhecido), participou de evento em benefício da Policlínica de Botafogo. No mesmo ano, ficou viúvo.
Embora a saúde não fosse das melhores, deixou que amigos gaúchos o convencessem a empreender uma turnê pelo Rio Grande do Sul, em 1932. Depois de tocar em Porto Alegre, Rosário e Campo de Santana do Livramento, foi para Montevidéu, de onde deveria rumar para o Rio de Janeiro.
Na capital uruguaia, contudo teve uma crise nervosa: teve que ser retirado á força de uma casa de música, no qual tocava piano convulsivamente. De volta ao Brasil,o diagnóstico foi sífilis na quarta fase- quando o cérebro é atingido.
O quadro neurológico era irreversível e Nazareth acabou internado na colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá, em janeiro de 1933. Não era incomum que fugisse do manicômio, vez por outra, era encontrado tocando piano em alguma casa de partituras. Fugiu pela última vez no dia 1 de fevereiro de 1934 , fuga sem volta. No dia 4 de fevereiro de 1934, seu corpo foi encontrado em uma represa, nos arredores da colônia.

Ernesto Nazareth 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Herivelto Martins


Herivelto Martins

Vida

O compositor Herivelto Martins nasceu no dia 30 de janeiro de 1912 no distrito de Rodeio (mais tarde Engenheiro Paulo de Frontin) na Serra do Mar, Rio de Janeiro. Era filho de Carlota de Oliveira Martins e Célio Bueno Martins, este um agente ferroviário e também artista amador.
O pai de Herivelto o incentivou a ser artista desde criança num tempo em que a profissão era malvista pela sociedade.
Criado em Barra do Piraí, onde foi morar a partir dos cinco anos, adquiriu de fato este gosto pela arte, pois era mais velho de seis irmãos (três moças e três rapazes) e ajudava o pai, fundador na ocasião da Sociedade Dramática Dançante Carnavalesca Florescente de Barra do Piraí, nome pomposo, mas era uma sociedade muito simples e modesta.
Na lembrança que tinha dos tempos de convívio com o pai Herivelto dizia que tivera infância de menino pobre mas que seu pai era idealista. O pai tocava mal diversos instrumentos. Tinha todos os instrumentos em casa e obrigava os filhos a tocá-los também. O pai era o presidente daquele clube-teatro e os filhos os ajudantes diretos.
Toda a família de Herivelto tinha tendência artística. Todos tentaram a carreira artística com mais ou menos sucesso. O primeiro irmão de Herivelto, Lacy constituiu uma dupla por um tempo Jacy & Lacy, tocava violão mas não deu sorte da carreira.. Sua irmã Eclenira também fez parte de conjuntos vocais, tocava e ensinava violão e Ednar Martins fez parte do grupo As Três Marias.
Além de ensiná-lo a tocar instrumentos, o pai de Herivelto o ensinava a entrar no palco, se vestir, se conduzir e a respeitar o público. Incentivado também por ele começou a compor algumas paródias e imitações. Imitava turco, caipira, português. As paródias faziam sucesso.
Herivelto também foi escoteiro e visitou o Rio de Janeiro pela primeira vez quando o Morro do Castelo começava a ser demolido
Neste meio tempo saia no Natal vestido de Papai Noel no grupo Pastorinhas de Barra do Piraí e, para ajudar a família, vendia doces feitos pela mãe. Mais tarde, a família mudou-se para Santo Cristo, bairro afastado da cidade onde montou com os irmãos um grupo teatral que promovia sessões para a vizinhança, cobrando ingressos, no próprio quintal da casa. Aconselhado pelo pai trabalhou como vendedor e ajudante de contabilidade numa loja de móveis a prestação.
Em 1927, aos 15 anos entrou para o circo e no final de1930 sua família mudou-se para São Paulo, pois seu pai fora transferido. Mas Herivelto não gostou da cidade e não se adaptou.
Sonhava mesmo era com a carreira artística. Aos 18 anos, então saiu de casa seguindo sozinho para o Rio de Janeiro, indo morar com o irmão Hedelacy que já estava por lá. A situação era crítica. Se encostou no irmão e foi tentar algo para sobreviver, passando por inúmeras dificuldades. Chegou a desmaiar na rua, porque estava passando fome.
Para sobreviver arranjou um serviço como barbeiro. Foi esta profissão que o salvou de morrer de fome no Rio de Janeiro.

Dalva de Oliveira

Herivelto conheceu sua futura esposa em 1936. Nasceu daí o Trio de Ouro que além do casal tinha Nilo Chagas.
O casal vivia em cortiços e teve os filhos Pery ( o cantor Pery Ribeiro) e mais tarde Ubiratan, mais tarde um dos diretores do departamento internacional da TV Globo. O casamento viria somente em 1939. Mas antes na década de 30, ao chegar ao Rio, Herivelto já tinha morado com Maria Aparecida com quem viveu pouco tempo mas teve dois filhos ( Hélcio e Hélio). Herivelto só assumiu os filhos após muita pressão da família da antiga companheira já na fase de união com Dalva.
Os primeiros êxitos do Trio de Ouro foi quando o grupo estreou em disco com “ Cecy e Pery” marchinha de um compositor conhecido como Príncipe Pretinho. Depois veio “Itaquari” gravado na Victor, também de Príncipe Pretinho.
Os maiores sucessos do trio cuja primeira formação durou doze anos, foi “ Lá em Mangueira”, “Senhor do Bonfim”, “ E não sou baiano “, “ Salve a princesa”- quatro pérolas carnavalescas- Odete (com Francisco Alves), “Praça Onze” ( com Castro Barbosa), “Bom dia, avenida” e “Minueto” além do clássico “ Ave Maria do Morro.

Ave Maria do Morro

Barracão
De zinco, sem telhado
Sem pintura, lá no morro
Barracão é bangalô.
Lá não existe
Felicidade de arranha-céu
Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu
Tem alvorada, tem passarada
Alvorecer
Sinfonia de pardais
Anunciando o anoitecer
E o morro inteiro
No fim do dia
Reza uma prece,
Ave Maria
Ave Maria, a- a- ave
E quando o morro escurece
Eleva a Deus uma prece
Ave Maria

Apesar de ser excelente compositor, genial e pioneiro criador de novidades no panorama artístico brasileiro e um homem considerado de imensa perseverança e generosidade com os amigos, Herivelto tinha o gênio difícil .Centralizador e durão era muito machista refletindo os valores da época em que vivia no momento onde o homem, o dono da casa, tinha sempre a palavra final, tinha sempre que dominar a mulher. Ele não admitia ser contrariado pela esposa que também tinha gênio forte. A boemia, o comportamento de Herivelto e suas muitas escapadas amorosas incomodaram e revoltaram a esposa e logo começaram a surgir as primeiras desavenças entre os dois. As brigas se tornaram uma constante. E não eram só brigas verbais, havia também violência física.
O compositor já anunciava a tensão existente no casamento com a música “Caminhemos” que era um prenúncio do que aconteceria na vida do casal.
Caminhemos ( Herivelto Martins)

Não, eu não posso lembrar que te amei
Não, eu preciso esquecer que sofri
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou para nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois
Vida comprida estrada alonga...da
Parto á procura de alguém, á procura de nada
Vou indo, caminhando sem saber onde chegar
Quem sabe na volta te encontre no mesmo lugar

Apesar dos bons momentos, incluindo o perfeito casamento musical de sucesso no Trio de Ouro e do forte sentimento amoroso que tinham um pelo outro, a separação do casal era inevitável. E se deu definitivamente em 1949, durante uma viagem à Venezuela embora Herivelto já estivesse envolvido afetivamente há pelo menos dois anos ( e Dalva não desconhecia este fato) com Lurdes Torelly, uma bela aeromoça, morena, de olhos verdes que viria a ser sua nova mulher, a partir de então.
Antes do embarque para a Venezuela, é preciso salientar que já haviam iniciado o processo de desquite. Viajaram sob o regime de separação consensual. Por exigência do juiz da Vara de Família que não considerava apto a dar atenção necessária aos dois filhos, por serem artistas. Pery e Ubiratan foram enviados para um colégio interno, o que causaria traumas profundos na cabeça dos dois e demoraria muito tempo para que os superassem
O que Herivelto não esperava é que Dalva sua invenção no Trio de Ouro e sua esposa devota se tornaria dentro de alguns meses a maior cantora do Brasil. Ele não reagiu nada bem a isso.
O conflito explodiu quando se revelou uma das muitas escapadas amorosas de Herivelto. Quando Dalva procurou retomar sua vida inclusive buscando um novo companheiro começou a guerra entre os dois monstros sagrados da música popular brasileira.
Herivelto começou a fazer músicas atacando a ex- esposa. Ela não precisou dizer uma só palavra em seu favor pois teve grandes compositores da música popular brasileira para falar em seu favor fazendo músicas que a defendiam tais como Nelson Cavaquinho e Ataulfo Alves entre outros.
Como grande parte do público que acompanhava o caso estava tomando partido a favor de Dalva, Herivelto acabou aceitando a ideia de seu amigo David Nasser, seu parceiro em inúmeras de suas composições para usar um espaço no jornal popular Diário da Noite de modo a dar sua versão muito particular do confronto que estava tendo com a ex-mulher. Foram 22 capítulos semanais a partir do início do 1951 visando a difamar Dalva. Pouca gente viu algo de valor neste fato o que diminuiu um pouco o prestígio da segunda formação do Trio de Ouro, com Raul Sampaio e Noemi Cavalcanti.

Pery Ribeiro

Filho do compositor Herivelto Martins e da cantora Dalva de Oliveira Pery Ribeiro nasceu no dia 27 de outubro de 1937 e faleceu em janeiro de 2012.
Profundamente traumatizado pela separação dos pais encontrou na realização artística um meio de superar seus problemas.
Foi o primeiro cantor a gravar “ Garota de Ipanema”. Pery foi ao show Encontro, o show dirigido por Aloysio de Oliveira e produzido por Flávio Ramos na boate de propriedade deste último, Bon Gourmet na rua Barata Ribeiro, em Copacabana. No show apresentaram-se juntos João Gilberto, Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Pery acabou gravando a música e depois pediu a autorização ao trio.
Pery adquiriu fama ainda criança. Orson Welles, o grande diretor de “ Cidadão Kane” considerado o melhor filme de todos os tempos veio para o Brasil com o intuito de filmar It´s All True ( É Tudo Verdade) filme sobre o Carnaval brasileiro. Ele precisava de um assistente brasileiro e indicaram-lhe o compositor e radialista Haroldo do Lobo porque este sabia falar inglês. Mas Haroldo acabou por recusar o convite e acabou indicando Herivelto Martins e o comediante e compositor Grande Otelo autores do samba “ Praça Onze” grande sucesso do Carnaval de 1941. Ninguém, segundo Haroldo, entendia mais de Carnaval do que os dois.
Orson queria filmar o Carnaval do ponto de vista de uma criança. Na sua concepção, a câmera iria seguir o garoto subindo o morro, assistindo aos ensaios no terreiro esgueirando-se por um mar de pernas de sambistas e passeando pela Avenida nos desfiles. Herivelto gostou da ideia ,porque já tinha uma criança em mente.
As filmagens de rua aconteciam em frente à escadaria do Teatro Municipal e as outras no estúdio da Cinédia em São Cristóvão. Pery era a criança que ia antecedendo e guiando a câmera mostrando o Carnaval brasileiro.

A Volta Por Cima

Apesar do grande embate travado entre Dalva e Herivelto marcado por ataques e canções terríveis capazes de machucar de ambos os lados ambos acabaram por reconstruir suas vidas.
Contra todas as expectativas Dalva encontrou a sua verdadeira voz e se tornou uma das rainhas da música popular no Brasil- para muitos a maior cantora de música popular brasileira. Os compositores se superavam para lhe escrever canções e ela foi a criadora, ou seja a primeira cantora a gravar canções como “ Tudo Acabado”, Errei, Sim”, “Que Será”, “Calúnia”, “Olhos Verdes” “ Zum- Zum”,“Rio de Janeiro”, “Estrela do Mar”, “Kalu”, “Neste Mesmo Lugar” E já nos anos 60 e 70 “ Rancho da Praça Onze”, “Máscara Negra” e “Bandeira Branca”
Herivelto também reconstruiu sua vida. No seu novo casamento com Lurdes Torelly, uma mulher que além de bonita e fina era muito inteligente, estável emocionalmente e dominadora a seu modo Herivelto se equilibrou novamente. Ela o ajudou em sua recuperação social e familiar depois das fases de escândalos com Dalva. Tiveram mais três filhos: Fernando, Yaçanã Martins que virou atriz e Herivelto Martins Filho.
No campo artístico todavia Herivelto acabou se acomodando em sua vida burguesa sem reparar nas mudanças gerais que a partir dos anos 60 começavam a se processar no Brasil e no mundo. Nunca mais criou outras músicas .Acabou dedicando-se mais a religião e de certa forma, à política.
No campo da espiritualidade, ele fundou um centro de umbanda em Realengo chamado Cabana Pai Joaquim Mina ao lado da nova esposa, pouco depois de se casarem. Dirigindo o terreiro, encontrou resposta na espiritualidade.
No campo da política ele passou a lutar pelos direitos autorais dos que faziam música no Brasil sendo o presidente do Sindicato dos Compositores por dois mandatos consecutivos. Também foi presidente da SBACEM- Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música. Como presidente do sindicato conseguiu o direito à aposentadoria para o artista e a obrigatoriedade da contribuição sindical.
Herivelto foi também funcionário público. Foi Inspetor do Trabalho e da Previdência Social fazendo sua especialização em higiene e segurança do trabalho.
Pery Ribeiro, portanto, teve a felicidade de redescobrir as qualidades humanas de seus pais antes que eles morressem acabando por se pacificar consigo próprio e com eles.

Falecimento

Herivelto Martins morreu do dia 16 de setembro de 1992, no Rio de Janeiro.



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Jacob do bandolim


Jacob do Bandolim

O bairro carioca da Lapa, notório pela vida boêmia de seus moradores, era um bairro onde conviviam diversos tipo de gente na década de 1910. Ali, viviam, em relativa harmonia, boêmios, malandros, prostitutas francesas e polacas (como eram chamadas as mulheres que exerciam esse ofício vindas do Leste da Europa), cafetões e intelectuais.
O compositor Jacob do Bandolim nasceu na rua Joaquim Silva, uma das mais movimentadas do bairro, na Maternidade das Laranjeiras no dia 14 de fevereiro de 1918. Era filho da polonesa Rachel Pick com o farmacêutico capixaba Francisco Gomes Bittencourt, muitos anos mais velho.
Batizado Jacob Pick Bittencourt, o menino foi morar no sobrado de número 97, onde passou a infância e a adolescência. Uma infância solitária da qual sobraram em suas lembranças apenas um velocípede e um cachorro chamado Príncipe. Certamente a mãe, conhecendo o ambiente do bairro preferia mantê-lo isolado. Mas a música furou o bloqueio através do som do violino de um francês, que ficara cego na Primeira Guerra e morava no andar térreo do sobrado. Fascinado pelo som, o menino pediu e ganhou um violino, mas não conseguiu se adaptar ao arco. Começou a pinicar as cordas com um grampo de cabelo e depois de inúmeras cordas partidas uma vizinha julgou que o instrumento mais apropriado para o menino talvez fosse o bandolim.
E assim foi feito. O menino ganhou um bandolim de cuia, tipo napolitano e sozinho foi aprender o instrumento criando um novo estilo de tocar este instrumento. Um dia, vindo de uma festa na vizinhança, Jacob ouviu uma melodia de um choro. Era o clássico” E do que há” e solado por seu autor Luiz Americano. Pegou o bandolim e ficou tentando reproduzir o que ouvia. Desde esse dia até o fim de sua vida, sua fascinação pelo choro só aumentou.
O adolescente ficou obcecado em conseguir um bom resultado com o bandolim e, autodidata, foi conseguindo vencer etapas. Aos quinze anos tocou pela primeira vez numa estação de rádio, era a Hora do Amador Untissal”( antisséptico cicatrizante, antecessor do mertiolate) da Rádio Guanabara. Com o grupo do Sereno, uns amigos também iniciantes tocou o choro “Aguenta Calunga” do flautista paulista Atílio Grani. O resultado não entusiasmou a Jacob que preferiu continuar estudando.
Após acompanhar fadistas e guitarristas portugueses com o violão durante algum tempo, Jacob iniciou de fato sua carreira de solista ao ganhar o concurso do “Programa dos Novos” na mesma Rádio Guanabara algum tempo depois. Para o concurso organizou o conjunto Jacob e Sua Gente, que era composto por Valério Farias, o Roxinho e Osmar Menezes nos violões, Carlos Gil no cavaquinho, Manuel Gil no pandeiro e Natalino Gil na percussão. O conjunto começou a atuar em diversas rádios e chegou a substituir o regional de Benedito Lacerda, o de maior renome na época., no acompanhamento de cantores.
E assim o grupo ia percorrendo as rádios e ganhando dinheiro

Amizade

Em 1939, na Rádio Ipanema, que ficava no Posto Seis em Copacabana, Jacob conheceu um rapaz violonista que servia ao Exército no Forte ali perto e que se tornaria seu mais valioso auxiliar pela vida inteira. Tratava-se de Benedito César Ramos de Faria que mais tarde teria a felicidade de ver seu filho Paulo consagrado na carreira artística com o nome artístico de Paulinho da Viola.

Casamento

Em 1940 no dia 11 de maio Jacob casou-se com Adylia Ferreira moça de família de classe média próspera e teve que assumir um compromisso para que o pai da noiva aceitasse o enlace. Prometeu e cumpriu não depender de música para os sustento do casal. E a família cresceu rápido. Em 1941 nasceu o filho Sérgio e no ano seguinte a filha Elena.

Emprego

Em 1943, Jacob se afastou do trabalho em rádios para se preparar e prestar um concurso público. Aprovado, foi nomeado escrevente juramentado da justiça, profissão que exerceu até sua aposentadoria. Não se pode precisar se em função da agilidade dos dedos ou pela prática da função de escrevente, Jacob se tornou um virtuose da máquina de escrever, capaz inclusive de conversar ou solfejar uma música enquanto batia um texto.
Por insistência de Adyla voltou ao rádio em 1945, passando a atuar na Rádio Mauá com um grupo novo que trazia a base do conjunto com que finalmente chegaria ao disco na Continental dois anos depois.
No começo da década de 1940, Jacob gravou com o grande compositor Ataulfo Alves alguns sambas que tiveram muito sucesso como o clássico “ Ai que saudade de Amélia”. Também gravou quatro discos contendo música de Ernesto Nazareth. Trata-se de adaptações perfeitas de músicas muito bem escritas para piano e transcritas para bandolim e conjunto regional.

Opiniões Polêmicas

Jacob do Bandolim possuía uma personalidade muito forte e contraditória. Não tinha pudor em emitir suas opiniões polêmicas doesse a quem doesse.
È muito conhecida a sua implicância com a música e a pessoa de Waldir Azevedo.
Em 1953, Jacob deu uma entrevista para o jornal” O Tempo de São Paulo” na qual previu que o choro duraria no máximo dez anos. Depois deste tempo confirmou esta afirmação sobre o acerto de sua previsão.; E não está morto? Mas em outra ocasião esquecendo do atestado de óbito pré-datado que ele mesmo assinara declarou: “Não deixarei que façam com o choro o que fizeram com o samba”
Na contracapa de seu LP “ Na roda do choro” definiu o chorão de forma bem fantasiosa:”É em princípio um improvisador, passa a vida planejando ensaios que nunca realiza porque indisciplinado, rebelde, os transforma em memoráveis reuniões onde prefere mostrar seu talento emotividade e capacidade improvisadora. Não faz questão de ser renumerado, mas não dispensa onde toca um bom prato ou um gostoso trago ou ambos ao mesmo tempo. Prefere o sereno ao abrigo até mulher nessas reuniões é para o chorão apenas um incidente” Para quem não bebia e ensaiava seu grupo com mão de ferro essa definição de chorão é até irônica.
Atacava os músicos da velha guarda, como Donga, Mas atacava também Baden Powell e Rosinha de Valença. Não poupava nem mesmo Edu Lobo do qual só achava bom Canto Triste.
Criticava ferozmente a bossa nova que considerava uma tentativa de imitação do jazz que eliminava as mais autênticas inflexões da música brasileira opinião que refletia sua definição do povo brasileiro como um povo simples, conservador e que não dispensava um chinelo velho e a sombra de uma mangueira.

O Bandolim

Jacob deu personalidade própria ao bandolim brasileiro no que tange a forma de tocar. Ao contrário do que já foi publicado o formato do instrumento que usava não é resultado de suas pesquisas. Jacob tocava um bandolim feito por um português, de acordo com a tradição lusitana do instrumento, uma espécie de cruzamento de bandolim napolitano com guitarra portuguesa.
E por falar em heranças lusitanas, o fraseado de Jacob sofreu influência dos executantes de guitarra portuguesa. Foi certamente a partir daí que ele extraiu os ornamentos que usou com tanta propriedade em suas interpretações. Quando perguntado o porquê de seu bandolim ter um som tão diferente do usual ele respondia sem falsa modéstia; “ O som do bandolim não é diferente o que é diferente sou eu “
Naquela Mesa
O filho de Jacob Sérgio Bittencourt autor da canção” Modinha” fez uma emocionante homenagem ao pai depois do falecimento de Jacob. Trata-se da música Naquela mesa famosa na voz da Divina Elizeth Cardoso.
A letra é a seguinte :

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre
O que é viver melhor
Naquele mesa ele contava histórias
Que hoje na memória
Eu guardo e sei de cor
Naquele mesa ele juntava gente
E contava contente
O que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa um canto
Uma casa e um jardim
Se eu soubesse quanto doí a vida
Essa dor tão doída
Não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala
Do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele
Tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele
Tá doendo em mim
Morte

Em 13 de agosto de 1969, voltando da casa de seu ídolo Pixinguinha Jacob teve o segundo e fatal enfarte. O primeiro havia sido no palco do Teatro Casa Grande depois de uma ovação de universitários por sua interpretação de Lamentos .O segundo foi fulminante e foi uma grande perda para o bandolim brasileiro.