quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Jackson do Pandeiro


Jackson do Pandeiro

Vida

O compositor paraibano Jackson do Pandeiro cujo nome verdadeiro era José Gomes Filho nasceu no Engenho Tanques, município de Alagoa Grande no dia 31 de agosto de 1919. Era filho do oleiro José Gomes com a cantora de cocos ( um ritmo nordestino) Flora Mourão.
Alagoa Grande conhecida como Rainha do Brejo ganhava ares de metrópole pelos benefícios gerados pela economia e e pela estrada de ferro que além de transportar os produtos para o comércio cada vez mais variado e rico trazia informação e trabalhadores para a a agroindústria. Com eles, andarilhos em busca de oportunidades e cantadores, boêmios, repentistas, violeiros e emboladores de coco.
Dona Flora, apoiada pelo marido ajudava a pagar as contas cantando em casamentos, batizados e festas de todos os tipos acompanhada por um músico chamado João Feitosa. Longe de pensar em carreira artística, o menino preferia ficar com a criançada na Lagoa do Paó ouvindo o coaxar dos sapos que um dia serviria de inspiração para um de seus maiores sucessos “Cantiga do Sapo”.
O menino não perdia as rodas de coco que a mãe fazia em casa para aperfeiçoar o repertório. E aos poucos ia aprendendo as letras,os ritmos e as batidas.
Aos sete anos, o menino tomou coragem e durante uma tarde de ausência de Feitosa assumiu o bumbo, assumindo o instrumento com competência. Três anos depois já era o acompanhante oficial da mãe. Apesar do longo caminho até o local das festas exercia a função como uma das brincadeiras com os amigos. Entre elas a preferida era imitar os heróis e bandidos do cinema mudo, principalmente os de faroeste em especial um ator norte- americano de filme de faroeste chamado Jack Perrin um sujeito magro e canastrão que o menino imitava com a perfeição possível da idade.

Mudança

O patriarca da família de Jackson acabou mudando para Campina Grande, deixando o engenho e se estabelecendo na periferia desta cidade. A mãe que até então contava com os filhos Zé e Severina ficou grávida pela terceira vez. Abandonou o coco para gerar e cuidar do filho João ( Tinda) e Zé Jack começava a trabalhar com o pai na olaria. Mas durou pouco o trabalho com o pai. Em alguns meses o patriarca morria de causas não reveladas e a família se decide mudar para Campina Grande para morar com os filhos da irmã , Maria Jacinta, já falecida e o cunhado Manuel Galdino.
Acabrunhada com a morte do marido, Dona Flora parou de sustentar a a família com seu canto, deixando para o filho mais velho a responsabilidade de de levar os dinheiros das despesas para a casa. Zé Jack passou a trabalhar como ajudante de padeiro , junto com os primos.
Passaram a morar numa região conhecida como Açude Velho.
Início da vida Profissional

Jackson no início de sua vida só pensava em trabalhar, e evitar confusão. Começou a frequentar os redutos boêmios levado principalmente pela música. Aprendia música nas feiras. Tocava todo tipo de instrumento de percussão , mas só assumiu o pandeiro depois que seu estilo chamou a atenção do cego cantador Chico Bernardo que vendia cordéis na Feira Grande e ficou impressionado pelo talento precoce do quase garoto.
Jackson começava a ser conhecido como músico. Apesar de atuar só em saraus, serestas e mesas de bar chamava a atenção dos mais experientes. Além da percussão, tocava os rudimentos da sanfona e do piano enquanto exercia direito de tocar com profissionais nos bares.
Precursores das rádios comunitárias que por lei só podem atingir uma pequena área de atuação, os serviços de alto- falante são ainda hoje canais eficientes de comunicação em várias regiões do Nordeste. Chamados de difusoras elas eram comuns em meados dos anos 30. Em Campina Grande José Gomes Filho que já adotara do apelido artístico de Jack do Pandeiro tocava em alguma destas difusoras. Em uma delas, no bairro em que morava, Zé Pinheiro, ganhou uma oportunidade que esperava havia um bom tempo sendo convidado para assumir o posto de condutor de um pastoril ( festas misto de religiosas e profanas muito comuns no Nordeste) no lugar do velho Caiçara que queria se aposentar. E Zé Jack acabou entrando na nova profissão como o palhaço Parafuso.
A difusora A Voz de Campina Grande fazia um show de calouros no domingo á noite. Foi ali que ele formou com o amigo Zé Lacerda a primeira dupla Café com Leite para cantar sambas e marchas de Carnaval e tocar pandeiro.
Depois de abrir mão do ofício de padeiro, seu primeiro emprego oficial veio no recém- inaugurado Cabaré Eldorado, a casa mais luxuosa de Campina Grande no final dos anos 30. Ali ele aprendeu tocando em uma orquestra de músicos muito experientes a tocar de tudo do choro ao jazz, do maxixe a rumba, do tango ao blues. Completou a nova fase de formação com o cinema falado. E cantado. Foi nas telas que viu o chapéu do cantor e compositor Manezinho Araujo, que passou a adotar como uma de suas marcas. E o samba cheio de breques e humor de Jorge Veiga que abriu possibilidades para seu futuro como cantor. Chegou a incluir músicas do repertório destes dois artistas em suas apresentações enquanto construía repertório próprio.

Almira Castilho

Cada vez mais popular, Jackson sentia falta de cantar, no rádio, seus cocos, rojões e batuques, mas guardava para o futuro que estava próximo. Mais exatamente no final de janeiro de 1953 a um mês do carnaval. A Rádio preparava a revista “ A Pisada é Essa” como última grande atração antes do Carnaval e Jackson havia preparado uma marcha para a a ocasião quando na última hora a emissora muda de ideia e ordena-lhe que toque um ritmo nordestino. Jakson lança mão do coco “ Sebastiana “ do amigo Rosil Cavalcante que começa a ensaiar para depois do carnaval. Ele convida a vocalista Luiza de Oliveira para acompanhante e se transforma na sensação da revista. Para ilustrar a história da comadre que dança feito uma guariba Luiza improvisa uma umbigada que após deixar Jackson momentaneamente surpreso, provoca uma resposta que deixa a plateia feliz e eufórica.
A dança diferente vira sucesso. Tanto que a rádio muda o nome da revista para A , E , I, O , U, Ypsilone e Jackson vira a atração principal da emissora.

A Letra desta música festiva e deliciosa é a seguinte :

Sebastiana ( Rosil Cavalcante)

Convidei a comadre Sebastiana
Para cantar e xaxar na Paraíba
Ela veio com uma dança diferente
E pulava que só uma guariba
E gritava: a e i o u ypislone ( bis)
Já cansada no meio da brincadeira
E dançando fora do compasso
Segurei Sebastiana pelo braço
E gritei, não faça sujeira
O xaxado esquentou na gafieira
E Sebastiana não deu mais fracasso
Mas gritava: a e i o u ypsilone

Com férias marcadas e exausta Luiza abandona suas atividades com Jackson dando lugar a Almira Castilho que se tornaria a grande parceira de Jackson na música e na vida.
A dupla vira uma das atrações principais da rádio e Jakson sai da orquestra Jazz Paraguary., posto inicial de contrato para assumir a função da cantor assim como a de comediante. Era um recomeço na carreira.
A relação entre Almira e Jakson evolui para uma relação sentimental e os dois acabam por se casar em outubro de 1964. Mas a relação se deteriora e o desquite começa a virar fato jurídico em 1967.
O último show aconteceu em Belo Horizonte. E o disco de encerramento da dupla foi “ Braza do Norte” de 1967. A separação conjugal já era fato, mas a profissional ainda não quando ele conhece, após uma participação no show de Ary Lobo, em São Paulo a próxima e derradeira mulher chamada Neuza Flores dos Anjos que era um fã do artista e foi conhecer o ídolo num restaurante de hotel e terminou apresentando Jackson ao pais e sendo imediatamente pedida em casamento.
Viveram felizes como um casa de cinema até janeiro de 1968 quando um acidente de carro deixou o artista sem mover os braços por mais de um ano. Neuza cuidou do marido até sua recuperação total. E acabou entrando para a música, por insistência do marido, que lhe ensinou a tocar agogô e e passou a formar com ela uma nova dupla.

O Canto da Ema

No final da década de 60, Jackson passa por novo renascimento artístico graças ao movimento da Tropicália movimento cultural dos anos 60 encabeçado por Gilberto Gil e Caetano Veloso que passam a considerar Jackson ídolo e ícone. Num lance de esperteza, simbolizando outra volta por cima lança o disco “ Aqui eu tô” cuja foto de capa faz menção aos Beatles do disco “ Abbey Road”.
E quando em outro álbum lança “ O Canto da Ema” para o público mais jovem.

O Canto da Ema ( Alventino-Aires Viana- João do Vale)

A ema gemeu
No tronco do juremá (2X)
Foi um sinal bem triste, morena
Fiquei a imaginar
Será que o nosso amor, morena
Que vai se acabar ?
Você bem sabe
Que a ema quando canta
Vem trazendo no seu canto
Um bocado de azar
Eu tenho medo
Pois acho que é muito cedo
Muito cedo , meu benzinho
Para esse amor se acabar
Vem morena ( vem, vem, vem )
Me beijar ( me beijar)
Dá-me um beijo (dá um beijo)
Pra esse medo se acabar

Outras Música de Jackson do Pandeiro( ou interpretadas por ele)

Forró em Caruaru ( Zé Dantas)
Chiclete Com Banana ( Gordurinha- Almira Castilho)
Um a Um ( Edgar Ferreira)
Xote de Copacabana ( José Gomes)
A Mulher do Aníbal ( Genival Macedo- Nestor de Paula)
Cantiga do Sapo ( Jackson do Pandeiro- Buco do Pandeiro)
Forró em Limoeiro ( Edgar Ferreira)
Casaca de Couro ( Rui Moraes e Silva)
Falso Toureiro ( José Gomes- Heleno Clemente)


Morte

Com prestígio em alta, Jackson e sua banda embarcam para um excursão pelo Nordeste que terminaria em Brasília. Em uma apresentação em Santa Cruz do Capibaribe, perto de Recife no dia 23 de junho de 1982 passa mal durante o show mas retoma o microfone e tudo termina bem. No dia seguinte faz um show normal em Caruaru mas volta a ter tonturas. O diagnóstico é enfarte. E leva o conselho de interromper a temporada para ir descansar.
Teimoso, o artista insiste em continuar a temporada e no dia 3 de julho faz um show entusiasmado numa associação de funcionários do Ministério da Educação, De manhã, no aeroporto dormiu seu cochilo habitual nessas ocasiões, enquanto esperava o vôo para o Rio, mas não acordou normalmente. Foi acudido por um médico que revelou uma queda na glicose que evoluiu para um coma. Foi internado, esteve em dois hospitais e no dia 10 de julho de 1982. á a tarde, depois de passar momentos acordados e falar com a mulher, Neuza, não resiste e morre.
No resgate de sua memória um prova do descuido de um pais que não valoriza a grandeza de seus artistas populares. Dos cento e cinquenta pandeiros que ele tinha em seu acervo pessoal restou apenas um para lembrar sua memória.

Jackson do Pandeiro 



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